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Moacyr: Bento XVI deve levar adiante
o trabalho de João Paulo II.

O pontificado de Bento XVI deve ser marcado pela manutenção da doutrina autêntica da Igreja Católica e o avanço no diálogo com as diversas religiões do mundo. Essa foi a avaliação que o arcebispo de Curitiba, dom Moacyr Vitti, fez ao ficar sabendo que o alemão Joseph Ratzinger foi escolhido para comandar a Igreja Católica. O novo papa foi braço direito de João Paulo II durante 26 anos e deve seguir o caminho trilhado pelo seu antecessor.

Dom Moacyr estava esperando um papa africano, asiático ou latino-americano. Segundo ele, o catolicismo está crescendo nesses continentes, mas também é forte a presença e a expansão de outras religiões. Um papa local poderia dar um reforço na caminhada da Igreja Católica.

No entanto, os cardeais optaram pela continuidade. Para dom Moacyr, Bento XVI deve levar adiante o trabalho de João Paulo II e uma aproximação maior da ciência com a Igreja Católica não deve acontecer. Questões como o uso de métodos anticoncepcionais e o uso de células-tronco em pesquisas devem seguir sem novidades. Também não deve haver mudanças em relação a uma maior participação das mulheres e a aprovação de casamento entre homossexuais.

Dom Moacyr afirma que o novo papa defende a firmeza da fé e a manutenção da doutrina católica, posturas que, segundo ele, são necessárias num mundo onde há tantos desvios morais. Ele pôde comprovar o pensamento ideológico do novo pontífice em duas visitas oficiais Roma. Uma em 1995, quando era bispo em Curitiba, e em 2002 quando era bispo em Piracicaba. Dom Moacyr era professor e lecionava a teoria da libertação e aproveitou para pedir a opinião de Ratzinger sobre o assunto. O novo papa disse que ela era importante porque era preciso libertar os povos da miséria e da opressão. Mas, por outro lado, era necessária a prudência para não se desviar da doutrina religiosa da Igreja. ?Ele não admitia desvios, foi muito firme?, recorda.

Outro motivo que leva a crer que Bento XVI será um papa conservador é o fato de ter dedicado sua vida ao estudo da teologia. Por vários anos foi presidente da Congregação da Doutrina da Fé.

O arcebispo comenta ainda que o pontificado de Bento XVI pode ser encarado como de transição. Ele era um dos cardeais mais velhos que estavam na disputa. Tem 78 anos, enquanto seu antecessor foi eleito com apenas 58. A diferença de idade deve influenciar também na peregrinação do novo papa pelo mundo. ?Ele não tem a mesma energia manifestada por João Paulo II?, destaca. Mesmo assim, dom Moacyr aposta no avanço do diálogo com as diversas religiões.

Missão difícil

O arcebispo sabe também que a missão de Bento XVI de ganhar a simpatia que João Paulo II cultivou pelo mundo será difícil. Mas afirma que o novo papa é um homem de coragem. Dom Moacir lembra ainda que, acima de todas as discussões sobre o novo papa, está a escolha divina.

Teologia é especialidade de Bento XVI

Gisele Rech

O bispo emérito de Curitiba, dom Pedro Fedalto, teve a oportunidade de ouvir o papa Bento XVI em um curso para bispos realizado no Rio de Janeiro, na década passada. O tema era um dos assuntos de maior domínio do novo pontífice: Teologia Dogmática.

?Ele é realmente um conhecedor profundo de Teologia e deu uma verdadeira aula sobre o tema para os cem bispos que estavam no Rio naquela época?, diz. Segundo ele, Joseph Ratzinger é um homem que, além de muito inteligente, é extremamente gentil e sorridente. ?Pela linha que segue, os meios de comunicação fazem uma imagem diferente dele. Ele apenas segue os fundamentos da Igreja, fazendo valer os mandamentos da Igreja?, diz.

Político, dom Pedro garantiu não ter torcido para qualquer candidato em especial, apesar de ser próximo do cardeal brasileiro Cláudio Hummes. ?Seria interessante termos um papa latino-americano, africano ou asiático. Mas o papado está em boas mãos?, acredita.

Assim como dom Pedro Fedalto, o arcebispo de Maringá, dom Anuar Batistti, mostrou-se entusiasmado com a eleição de Bento XVI. Ele teve a oportunidade de conhecer Ratzinger durante um evento em Roma. ?Ele se mostrou interessado sobre as questões da Igreja Católica no Brasil e comprovou ser alguém muito preparado?, disse. Por se tratar do braço direito de João Paulo II, dom Anuar aposta na continuidade do trabalho. ?Estamos satisfeitos com essa continuidade. Que ele tenha luz para realizar este trabalho.?

O arcebispo de Londrina, dom Albano Cavalli, manteve o discurso de seus companheiros, criticando o rótulo dado a Bento XVI de conservador. ?Ele é na verdade liberto diante dos fatos. E posso dizer que ele é intelectualmente mais avançado que João Paulo II.?

O representante episcopal da Pastoral da Terra no Paraná, dom Ladislau Biernaski, também torce para a continuidade dos trabalhos desenvolvidos por João Paulo II. ?Esperamos que o novo papa continue a política de João Paulo II. Ele certamente defenderá a doutrina social da Igreja. Podem acontecer fatos novos, que exigirão novas discussões, mas certamente ele manterá essa posição.? Apesar de acreditar nisso, o bispo deixou claro sua preferência. ?Sinceramente, esperava que fosse um papa do terceiro mundo.?

Alemães têm força em Roma, revela cônsul

O cônsul honorário da Alemanha em Curitiba, Hans Schorer, tão logo João Paulo II faleceu, comentou que acreditava que o novo papa seria ou o alemão Joseph Ratzinger ou o descendente de alemão e brasileiro Cláudio Hummes. Foi um palpite baseado na força que os alemães têm em Roma, devido às influências da época do Sacro Império Romano Germânio. A favor de Ratzinger, Schorer acredita que valeu a proximidade entre o novo papa e João Paulo II.

?Eu acredito que ele vá seguir a mesma linha de João Paulo II, baseada em dogmas da Igreja?, diz, referindo-se a questões como o veto às pesquisas com células-tronco. ?Eu acredito que o novo papa, apesar de ser dogmático, vai perceber algumas inquietudes do mundo moderno e tomar um caminho inteligente.?

Apesar de reconhecer a linha conservadora de Bento XVI, Schorer diz que a natureza dele é afável, comunicativa e cativante. (GR)

Ratzinger é o pontífice do consenso, avalia teólogo

?O papa Bento XVI é o papa do consenso.? Essa foi uma das avaliações feitas pelo diretor do curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), professor Mário Antônio Sanches, sobre a rápida eleição do alemão Joseph Ratzinger. Para ele, mostra o momento de unidade que vive hoje a Igreja Católica.

Sanches avalia também que o novo papa será o pontífice da continuidade, por ter sido o braço direito de João Paulo II. O professor reforçou ainda a idéia de um papado de transição. No entanto, comenta que o mundo pode se surpreender como aconteceu com João XXIII. Ele ficou por poucos anos à frente da Igreja Católica, mas convocou o Concílio Vaticano II, onde houve várias mudanças. Uma das mais significativas foi a substituição do latim nas celebrações religiosas pelos idiomas locais. (EW)