A decisão do governo do Paraná em seguir apostando na vacina a ser entregue pelo Ministério da Saúde como principal plano para imunizar a população do estado da covid-19 vem gerando reações de políticos da própria base do governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) e críticas de entidades de classe. O receio é de que se o estado não negociar diretamente com laboratórios, o Paraná possa ficar para trás na vacinação se o Programa Nacional de Imunização (PNI), do governo federal, não atender à demanda de todos os estados.

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Em entrevista coletiva sexta-feira (11), o governador criticou a corrida de estados e municípios que buscam a vacina fora do plano do Ministério da Saúde. Posicionamento que foi reforçado pelo secretário estadual de Saúde Beto Preto em nota nesta segunda-feira (14), em que considerou que a busca pela vacina no Brasil está “ganhando contornos de esquizofrenia”.

“Essa corrida em busca de pactuação pela vacina com laboratórios diferentes por prefeitos e governadores sinaliza uma clara opção pela intenção de fragilizar o PNI, não necessariamente a garantia de atendimentos para todos”, critica o secretário de Saúde na nota.

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Apesar deste posicionamento, o governo do Paraná já indicou estar disposto a adquirir doses de qualquer laboratório autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a produzir a vacina da covid-19. Entretanto, o único acordo em vigência no Paraná está atrasado e parado, o da vacina Sputnik V, do governo da Rússia. Além dos russos, o Paraná não tem nenhum outro acordo encaminhado com laboratórios. Teve apenas uma conversa entre o governador e um executivo da Pfizer em outubro que até agora não teve resultado.

Entre os municípios paranaenses, dois administrados por aliados de Ratinho Jr já encaminharam acordo para compra da vacina: Curitiba e Maringá. Ambas as prefeituras vão adquirir do governo de São Paulo doses da Coronavac, a vacina chinesa produzida no Instituto Butantan. O prefeito da capital, Rafael Greca (DEM), fechou investimento de R$ 4 milhões em doses.

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Já a cidade do Noroeste do estado não informou o valor, mas garante estar com o acordo bem encaminhado. “Independentemente dos governos federal e estadual, nossas equipes estão pesquisando a forma mais adequada para fazer a compra das doses”, postou no Twitter um dia antes do acordo pela Coronavac o prefeito de Maringá, Ulisses Maia, que inclusive é do mesmo partido do governador Ratinho Jr., o PSD.

Plano de Vacinação

Enquanto Curitiba e Maringá fechavam seus acordos privados pela vacina, também semana passada um projeto de lei ordinária foi encaminhado à Assembleia Legislativa cobrando o plano de vacinação do estado.

De autoria dos deputados estaduais Michele Caputo (PSDB) e Alexandre Amaro (PRB), o projeto, que deve ser votado em regime de urgência, prevê a criação de diretrizes para a vacinação. Entre elas, a priorização na vacinação em regiões e municípios de maior incidência do coronavírus, a preparação da logística para a aplicação das doses, a garantia de insumos – como seringas e agulhas -, e até campanhas de incentivo à vacinação, incluindo o enfrentamento de notícias falsas sobre a vacina, as fake news que se proliferaram na pandemia.

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Para o deputado Michele Caputo (PSDB), que é da base do governo na Assembleia e foi secretário de Saúde da prefeitura de Curitiba e do governo Paraná na gestão Beto Richa (PSDB), o estado não deveria apostar todas as fichas apenas na imunização do Ministério da Saúde.

“Estaria certo apostar só no Ministério da Saúde se fossem dadas todas as garantias de que vão entregar a vacina em quantidade suficiente para todos os estados”, aponta Caputo, que é do mesmo partido do governador paulista João Doria (PSDB). Caputo, inclusive, chegou a inspecionar a produção da Coronavac no Instituto Butantan em setembro.

“Todo gestor que tiver orçamento deve fazer a compra da vacina com os laboratórios, já que o Ministério da Saúde deve entregar as doses de forma fracionada, apenas para grupos pequenos”, ressalta Caputo, lembrando que o estado tem R$ 200 milhões em caixa para executar o plano de vacinação.

O deputado teme que se o Paraná ficar para trás haja uma corrida de paranaenses para outros estados em busca da vacina, em especial o vizinho São Paulo, onde Doria já se ofereceu para vacinar qualquer brasileiro que vá até lá.

Sociedades médicas e científicas

Semana passada, a regional paranaense da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB-PR) já havia publicado carta cobrando do governador Ratinho Jr definições do plano estadual de vacinação da covid-19. O documento pede que o governo “dê início às tratativas para adesão a um procolo de intensão de compra também de outras vacinas dentre as que estão em fase de aprovação emergencial por parte da Anvisa.”

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A carta também é assinada pelo Sindicato dos Médicos do Paraná (Simepar), cujo presidente, o médico Marlus Volney Morais, também acredita que o estado deveria estar em tratativas com mais laboratórios. “A reserva por vacinas é fundamental e para isso o governo do estado deveria se antecipar. Se demorarmos para entrar nessa fila, pode acontecer de só temos a vacina para todos no segundo semestre”, avalia.

Morais defende o PNI, que há mais de 40 anos vem garantindo a imunização de brasileiros em campanhas de vacinação das mais diversas doenças. Porém, aponta, para a covid-19 o Ministério da Saúde está dando indicativos de que não deva conseguir atender a demanda na velocidade necessária. “Se o PNI tivesse um cronograma já bem desenhado, seria o ideal. Mas não é o que estamos observando”, enfatiza o presidente do Simepar.