Em 30 de junho, quando o governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) decidiu endurecer as medidas restritivas de combate à covid-19 em determinadas regiões, afetando fortemente a atividade econômica, apoiou parte de sua decisão no risco de superlotação do sistema de saúde do estado. Com 515 dos 785 leitos de UTIs exclusivos para a doença ocupados naquele dia, o Paraná registrava taxa de ocupação batendo os 65% – com alguns municípios, como Curitiba, superando perigosamente esta marca.

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Apesar disso, a capacidade hospitalar do estado, de acordo com números oficiais, ainda não esteve na zona vermelha. É que o governo trabalha, em seus planos de contingenciamento da covid, com um adicional de leitos de enfermaria e UTI que podem ser somados aos já existentes em caso de necessidade. Em 30 de junho, data do decreto, o estado contabilizava uma capacidade de 2.115 leitos somente de terapia intensiva – soma dos 785 leitos de UTI disponíveis com os que poderiam ser contratados em hospitais particulares ou na rede filantrópica.

Caso o cálculo da ocupação fosse feito em cima da capacidade total, a taxa de ocupação das UTIs cairia para 24%. A queda é vertiginosa e, sem dúvida, se analisada essa relação, a necessidade das medidas restritivas perderiam parte de sua força – pelo menos no que compete ao risco de superlotação do sistema de saúde. Então por que o governo não levou isso em conta na decisão sobre apertar ou afrouxar a quarentena?

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De acordo com o diretor-geral da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa), porque, na prática, o planejamento do combate à pandemia não permite. “[A tomada de decisão não leva em conta a capacidade total de leitos] Porque eles não estão disponíveis”, diz Nestor Werner Júnior. “O problema da pandemia é o número de casos, pessoas internadas e óbitos hoje. Não posso fazer em cima da expectativa futura. É muito rápido o movimento. Temos um plano de médio prazo e longo prazo: 15 dias, 30 dias, 45 dias, 60 dias… Mas a tomada de decisão vai no que está acontecendo agora. Não posso contar com algo lá na frente para tomar uma decisão hoje”, defende.

Werner destaca que o estado trabalha com um número mais “apertado” de leitos porque eles têm um custo financeiro elevado e um esforço de recursos humanos. No fundo, a conta de mais de 2 mil leitos de UTI “em potencial” para serem utilizados para pacientes Covid não fecha facilmente. “Não pode abrir um hospital com 50 leitos e deixar ele vazio durante dois ou três meses. É um desperdício muito grande de dinheiro. Precisamos pensar no bom senso, no uso racional do dinheiro público. Vamos abrindo conforme a necessidade, a disponibilidade e a conveniência”, aponta. “Outros estados abriram hospitais inteiros e não atenderam nenhum paciente porque não foi necessário. Foi mal planejado”.

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De acordo com dados do Ministério da Saúde, um leito de UTI tem custo aproximado de R$ 1,6 mil por dia. Esse valor é o estimativo para o enfrentamento da Covid. “Os valores pagos regularmente são mais baixos por conta da rede articulada. Para ter a habilitação de um leito de UTI você já tem o contexto de planejamento feito um, dois anos antes. A estratégia de enfrentamento da Covid foi feita em pouquíssimo tempo”, diz.

Em junho, em prestação de contas na Assembleia Legislativa do Paraná, o secretário de Saúde Beto Preto estimou em R$ 18 milhões os gastos com compra de leitos hospitalares. O gasto com a crise sanitária para os próximos meses foi estimado em R$ 500 milhões, de acordo com o chefe da pasta.

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Chefe da UTI do Hospital do Trabalhador e membro da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), a intensivista Mirella Oliveira sustenta que habilitar um número grande de UTIs ao mesmo tempo não é uma estratégia sustentável. “Não tem sentido abrir todos os leitos de uma vez. Gasta com ventilador [mecânico, equipamento de auxílio à respiração], cama, pessoal [o número de profissionais da saúde é uma das principais preocupações com a alta na demanda por UTIs]. E depois, se você não usa? Por isso faz-se uma abertura escalonada. Quase todos [os estados e hospitais] fazem gestão da mesma forma”, destaca.

Números da ocupação de UTIs

De acordo com o boletim da Sesa desta terça-feira (7), o estado tem 576 leitos ocupados de UTI dos 824 disponíveis. A macrorregião Leste, onde fica a capital, Curitiba, é a que tem a maior taxa de leitos de UTI ocupados: 380 dos 431 (88%). Em breve, segundo a Sesa, o total de leitos de UTI para Covid no Paraná deve subir para 861. O estado, hipoteticamente, teria capacidade de chegar a 2.246 leitos de UTI, segundo os dados mais recentes do governo. Os próprios gestores, no entanto, deixam transparecer que esse patamar é quase impossível de ser alcançado, dados os custos operacionais, de insumos e recursos humanos.

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Apesar de uma situação ainda controlada, o diretor-geral da Sesa aponta que não há motivo para relaxamento nos cuidados com a saúde. “Não temos capacidade de abrir [leitos] indefinidamente. Tem profissionais envolvidos, dinheiro envolvido. É [gasto com] mais equipamentos, pessoal, recursos humanos”, defende.

O decreto restritivo do governo estadual é válido por 14 dias, podendo ser prorrogado. O Paraná registra 33.939 casos de Covid-19 e 837 mortes pela doença.


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