A Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou ontem um novo mapa da exploração sexual infanto-juvenil nas estradas brasileiras. Este ano foram identificados 1.198 pontos considerados vulneráveis à ocorrência de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ao longo dos mais de 60 mil quilômetros de rodovias federais. Em comparação com 2006, quando haviam sido mapeados 1.222 pontos, há um aumento de mais de 55%. No Paraná, o número se manteve praticamente estável, passando de 105 pontos, em 2006, para 106 este ano.

O levantamento aponta que os locais mais críticos são pátios de postos de combustíveis, bares, restaurantes e prostíbulos situados à margem das rodovias. O estado que aparece com o maior número de pontos é Minas Gerais, com 290, 100 a mais do que no ano passado. Em segundo lugar vem o Rio Grande do Sul, onde foram identificados 217 locais de risco, número quatro vezes maior que o de 2006, quando foram mapeados 52 pontos.

Segundo o chefe de Comunicação Social da PRF, inspetor Alexandre Castilho, o aumento de pontos mapeados este ano, em relação a 2006, não significa necessariamente que o problema tenha se agravado. Ele explicou que o número cresceu porque a estrutura da PRF para realizar o levantamento é maior, tanto em termos de policiais quanto de conhecimento. Da mesma forma, segundo ele, não é possível afirmar que, por estar em primeiro lugar, Minas Gerais seja o estado onde o problema é mais grave. É que o estado é também a unidade federativa com a maior malha viária do país, com mais de dez mil quilômetros de estradas federais.

Paraná

O chefe da Seção de Policiamento e Fiscalização da PRF no Paraná, Gilson Cortiano, explica que os pontos vulneráveis no Estado, que passou de terceiro para sétimo do País com mais locais suscetíveis entre 2006 e 2007, estão localizados principalmente na região do Porto de Paranaguá e no corredor Foz do Iguaçu-Cascavel. Outra região problemática é a de Ponta Grossa, onde há muitos bares e boates de beira de estrada. ?Mas lá fizemos trabalho intenso e coibimos a situação?, ressalva.

Quanto à colocação do Paraná entre os demais estados, Cortiano explica que existe aí uma relação direta entre as características econômicas e geográficas do Estado e a malha rodoviária. ?Por ser estado agrícola e industrial temos uma das maiores demandas de trânsito do País, além da fronteira internacional, pontos que atraem a vulnerabilidade.?

Somente este ano, em todo o Brasil, a PRF encaminhou 65 crianças e adolescentes em situação de risco aos conselhos tutelares. No ano passado foram 127. No Paraná foram 19, em 2006.

?Complô? atrapalha as denúncias

Joyce Carvalho

As crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual sofrem graves danos psicológicos, que muitas vezes não são tratados. Isso acontece por desinformação e por pacto da própria família. Existe o chamado ?complô do silêncio?, no qual ninguém toma uma providência com medo de represálias. Esses temas foram tratados ontem, durante um encontro na sede do Ministério Público (MP) do Paraná, para reflexão do Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual.

A psicóloga e servidora do MP, Karen Richter Pereira dos Santos Romeiro, ministrou uma palestra sobre uma pesquisa realizada por ela, intitulada de Crianças Vítimas de Abuso Sexual: Aspectos Psicológicos da Dinâmica Familiar. O estudo abordou quatro famílias com casos de abuso sexual em crianças. Karen percebeu que o traço comum entre as quatro situações era a negligência. ?As crianças estavam dando indícios do abuso, mas as famílias não perceberam ou não quiseram perceber?, afirma.

Além disso, alguns pais até sabem o que está acontecendo, mas fingem que não vêem porque os casos de abusos estão relacionados, na maioria das vezes, com pessoas próximas. Um exemplo é o pai ou padastro que abusa dos filhos. A mãe pode ter ciência dos fatos, mas ela não age com medo de perder a unidade familiar. Estima-se que apenas 20% dos casos de abuso são denunciados. ?O problema é esse fenômeno sigiloso, que fica muito dentro da família. O abuso sexual acontece em todas as classes sociais. Mas as mais carentes acabam utilizando mais os serviços públicos. Por isso, fica mais evidente?, comenta Karen.

Chuva frusta caminhada de conselhos tutelares

Lígia Martoni

A chuva de ontem em Curitiba frustrou a caminhada programada pelos conselheiros tutelares das nove regionais do município, em prol do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Mesmo assim, eles se reuniram na Praça Santos Andrade, em frente à Universidade Federal do Paraná (UFPR), com faixas e um carro de som para dar o recado à população. Segundo a conselheira Jussara Gouveia, a idéia é estimular a sociedade à mobilização e denúncia contra esse tipo de violência.

Os conselheiros tinham planos de fazer uma caminhada partindo da Santos Andrade até a Boca Maldita no início da tarde de ontem, mas desistiram da idéia quando perceberam que a chuva não dava trégua. ?Íamos empunhando cartazes e distribuindo panfletos à população para que se conscientize?, disse Jussara.

A orientação sobre como fazer as denúncias de abuso ou exploração sexual foi dada do carro de som mesmo, com explicações sobre o crime e o anúncio dos telefones utilizados para este fim, o 181 (estadual) e 0800-990500 (nacional). Escolas, postos de saúde e creches também são locais onde as denúncias podem ser feitas sem que o autor seja identificado. As notificações vão diretamente para os conselhos tutelares.

A caminhada também serviria para colher assinaturas para um abaixo-assinado que pede classificação da pedofilia como crime hediondo.