Uma planta nativa do Paraná tem animado os pesquisadores que estudam seu uso no combate às células com câncer. De acordo com a pesquisa realizada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), já publicada na revista Scientific Reports, do grupo Nature, a substância Fruticulina A, presente na planta Salvia lachnostachys, apresentou um efeito benéfico contra células cancerosas humanas e Carcinoma Sólido de Ehrlich, desenvolvido em camundongos e semelhante ao tumor da mama humano. 

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Mas a sálvia estudada não é aquela utilizada como tempero na culinária, e sim outra espécie, que é endêmica no sul do Brasil, especialmente no Paraná e Santa Catarina, considerada nativa da Mata Atlântica. Na UFPR, o estudo é desenvolvido no doutorado da pesquisadora Claudia Rita Corso, sob orientação da professora do Departamento de Farmacologia, Alexandra Acco.

Planta pesquisada. Foto: Divulgação

Resultados da pesquisa

Os pesquisadores explicam que o estudo foi desenvolvido “in vitro” – fora do organismo vivo, usando apenas células tumorais isoladas – e “in vivo”, em camundongos, tanto com o extrato completo da sálvia quanto com a fruticulina A isolada. Os primeiros resultados, que utilizaram o extrato completo, foram publicados em 2019 na revista Molecular BiologyReports. “O extrato completo tem uma composição mais complexa e apresenta diferentes atividades biológicas. Com ele, já percebemos a atividade anti-tumoral no modelo in vivo, com os camundongos”, explica a professora.  

De acordo com o estudo, os resultados ainda indicaram que a fruticulina era o composto predominante na análise do extrato. Existente também em outras espécies, ele foi isolado da Salvialachnostachyse estudado em profundidade na investigação. Seus resultados, segundo Alexandra, não foram iguais ao do extrato, o que sugere mecanismos distintos de ação em células com tumor. “O composto apresentou efeito anti-tumoral, induzindo a várias reações celulares”.  

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A professora também explica que as células tumorais se multiplicam rapidamente e sem finalidade. O objetivo de terapias anticancerígenas é combater esta capacidade proliferativa e levá-las à morte, tal como ocorre em procedimentos como a quimioterapia, por exemplo. Nos experimentos, a fruticulina conseguiu esse resultado por vários caminhos diferentes, o que lhe apresenta como molécula promissora para o desenvolvimento de fármacos no tratamento do câncer. Entre esses caminhos, destacaram-se na análise a regulação da inflamação, apoptose e necroptose no tecido tumoral.   

Os resultados também apontam para um efeito antiproliferativo, ou seja, de diminuição da multiplicação celular entre as células tumorais. Apesar dos resultados positivos, a pesquisa traz importantes desafios: para novos testes com o extrato da planta e com o composto específico é necessário um complexo procedimento de isolamento e também grande quantidade de material.   

Alexandra ainda destaca que os resultados do procedimento in vitro foram possíveis graças à colaboração com o Tytgat Institute for Liver and Intestinal Research, em Amsterdã. O artigo também tem colaboração de outros pesquisadores da UFPR e da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).  

Pimentão e frutas contra o câncer

Além do estudo da fruticulina e do extrato de sálvia, professora da UFPR e sua equipe também pesquisam o efeito de extratos de outras plantas (Sinningiareitzii) e de polissacarídeos no tratamento das células tumorais, em colaborações com os Departamentos de Química e de Bioquímica da UFPR.

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O pimentão, objeto de uma tese divulgada pelo Curta Ciência e duas frutas do Cerrado, o tucum e a bocaiúva, estão entre os interesses de pesquisa. A ideia é extrair os compostos e implementar os ensaios para avaliar os resultados e sua potencialidade terapêutica contra alguns tipos de câncer.