No lugar de esmola, incentivo social. É mais ou menos isso que a Prefeitura de Curitiba, por meio da Fundação de Ação Social (FAS) pretende com o programa Não Dê Esmola, lançado há cerca de um mês na cidade. Segundo a presidente da FAS, Marina Taniguchi, a prática da esmola não alivia em nada a situação dos mais necessitados. “É um incentivo para que a criança, o jovem e o adulto permaneça na rua, não entre na escola, não procure um trabalho”, argumenta. Segundo ela, quem quiser ajudar os carentes, pode contribuir com os projetos sociais da Prefeitura listados na internet (www.curitiba.gov.br) ou com as entidades assistenciais parceiras.

A FAS diz ter atendido mais de 25 mil crianças nos diversos programas da entidade. Segundo Marina, a instituição está lutando contra a prática da esmola, justamente por proporcionar à população de rua uma oportunidade de resgate social. “Em nossas iniciativas, conversamos com os pais dos menores. Encaminhamos a criança para e escola. Doamos a cesta básica e acompanhamos a família”, explica.

No caso dos adultos, Marina explica que o trabalho social é um muito mais complicado. Segundo ela, não há como obrigar as pessoas a participarem dos programas da Fundação. “Essa população procura nossos albergues esporadicamente, mas sempre acaba voltando para a rua, para a mendicância”, diz Marina, lembrando que também existe uma série de iniciativas voltadas para essa população. “Por meio da Central de Resgate Social damos moradia e alimentação para essas pessoas para depois tentar encaminhar para algum curso profissionalizante.”

Pena, pressa ou reconhecimento

Guilherme Voitch

Por pena, compaixão ou por pressa mesmo. O fato é que dar esmola tornou-se mais regra do que exceção em Curitiba . Segundo a Prefeitura, a população crônica de rua na cidade é de 350 pessoas. “Esse é a população mais ou menos fixa. Tem aqueles que possuem moradia e que pedem esmola de vez em quando. Tem gente que mora em outras cidades e aparece para mendigar”, explica Marina. O representante de vendas Nilson Pedroso diz que é normal ser abordado mais de uma vez por dia pelos pedintes. “Algumas vezes acabo dando, depende da situação”, explica. “Para a criançada no sinal, não dou não, porque não adianta. Não resolve o problema.”

O vendedor Floraindo Monteiro conta que dificilmente dá esmola. “Só se a pessoa tem algum problema físico, alguma coisa que a gente perceba que a impeça de trabalhar”, diz.

Monteiro diz sempre contribuir com os artistas de rua da Quinze. “Sempre dou alguma coisa para o pessoal que toca, que faz artesanato, perfomance, mas aí não é esmola: é um reconhecimento pelo trabalho”, argumenta.

Um dos artistas a que Monteiro se refere é o músico Adriel Lima Vieira, de 29 anos. Desde que perdeu as pernas, há mais de dezessete anos, em um acidente de trem, ele viu na rua uma das poucas chances de sobreviver. “Emprego convencional eu não ia arranjar não. Comecei pedindo por pedir. Daí ganhei a flauta e aprendi a tocar sozinho. Eu faço uma música e as pessoa gostam. Contribuem se quiser”, explica Adriel, que fatura em média R$ 20 por dia.

Apesar de não considerar o dinheiro que recebe como esmola, ele conta que campanhas como a da prefeitura acabam atrapalhando a vida dos artistas de rua. “Tem de se ser bem explicado, senão as pessoas confundem e param de contribuir com os artistas de rua. Estamos trabalhando e não simplesmente pedindo.”