Mais de 600 mil turistas estrangeiros e três milhões de jornalistas deverão visitar o Brasil durante a Copa do Mundo de 2014, e um número ainda maior de pessoas deve chegar ao País em 2016, para as Olimpíadas. Os números crescem se considerarmos os três milhões de turistas brasileiros em migração entre os estados. Prevendo o impacto ambiental desse aumento populacional, o Ministério do Meio Ambiente já planeja ações específicas chamadas de Copa Verde, mas especialistas do setor acreditam que os projetos não serão suficientes.

Para Paulo Costa, diretor da consultoria H2C, empresa especializada em projetos e implementação de programas de uso racional da água, só a parte sanitária dos hotéis é capaz de causar um grande rombo ambiental. “60% dos hotéis, ou seja, cerca de 15 mil empresas, não tem instalações hidrossanitárias que gerem consumo baixo. O turista vai usar chuveiros com vazão de 30 a 40 litros por minuto, podendo, portanto, gastar em um banho de 10 minutos até 250 litros de água, enquanto a ONU preconiza o consumo de apenas 110 litros por dia”, alerta. De acordo com o especialista, 70% do consumo de água nos hotéis é oriundo dos chuveiros. Em uma residência, o chuveiro corresponde a 46% do consumo total de água.

Enquanto a África do Sul importa água e energia para dar conta das necessidades dos turistas que acompanham a Copa de 2010, o Brasil tem estoques de água doce que representam 13% de toda a água do planeta. Costa acredita que todo esse estoque não recebe o devido cuidado. Informações da Sabesp, responsável pelo fornecimento de água, coleta e tratamento de esgotos de 366 municípios do Estado de São Paulo, a cada 100 milhões investidos em saneamento básico, 300 milhões são economizados em recursos do ministério da saúde destinados a tratamento das doenças oriundas da falta do tratamento da água.

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Paulo Costa destaca o problema do controle da água em hotéis.

“Um bom desafio para o setor hoteleiro é transformar essa realidade. Tecnologia nós temos, mas falta a atitude. Temos políticas públicas muito tímidas voltadas ao consumo racional da água”, garante o diretor.

Ele sugere ações que podem ajudar na economia de água: “a instalação de um restritor de vazão, que custa em média R$ 20, permitiria reduzir o consumo de 25 a 10 litros por minuto – uma economia de até 60%! Com o desenvolvimento de uma norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) relativa às instalações hidrossanitárias em estabelecimentos de hospedagem, as empresas seriam beneficiadas com a economia, mas o meio ambiente e a sociedade ganhariam ainda mais”.

Contaminação 6 vezes maior

Durante a Conferência sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado, especialistas apresentaram estudos que apontam que o impacto ambiental da Copa do Mundo de Futebol deste ano será seis vezes superior ao nível de contaminação registrado no campeonato anterior, de 2006, na Alemanha. Cerca de 85% dessa contaminação prevista sairia dos aviões. A tendência é que esse impacto seja ainda maior nas próximas competições. “Com a globalização ficou muito mais fácil juntar pessoas do mundo inteiro em um só continente, coisa que não era tão simples na Copa de 1950, que também foi no Brasil”, explica o biólogo Marcelo Stedele, especialista em gerenciamento e auditoria ambiental. “Com o maior fluxo de pessoas nas subsedes da Copa, aumenta a produção de lixo, consumo de água e energia, possibilidade de proliferação, de doenças advindas de outros países, entre outras coisas”, afirma.

Prevendo o problema, os ministros do Meio Ambiente (MMA) e do Esporte assinaram um acordo de cooperação no final de abril para implementar uma agenda sustentável com propostas de políticas sustentáveis para a Copa de 2014 no Brasil e para as Olimpíadas de 2016. Deverão ser assegurados o menor impacto ambiental, a neutralização das emissões de gases-estufa, a eficiência energética, a construção de estádios sustentáveis, e a promoção do consumo de produtos orgânicos durante a realização dos eventos. Uma nota da assessoria de imprensa do MMA explica que “a ideia é aproveitar a paixão do brasileiro pelo futebol para estimular a participação dos torcedores a adotarem medidas de proteção ambiental no dia-a-dia”. Também serão realizados investimentos para a melhoria da infraestrutura dos parques federais que estão localizados nas 12 subsedes da Copa, dentre elas Curitiba.

Em junho do ano passado, os arquitetos que farão obras nos estádios indicados para receber os jogos da Copa no Brasil se reuniram para também debater soluções tecnológicas de baixo impacto ambiental. Foi sugerida a construção de “Eco Arenas”, que teriam parte da demanda de energia parcialmente suprida por painéis de captura de energia solar. A demanda de água também seria reduzida com a utilização de água da chuva tratada na irrigação do campo e nos banheiros. “Na época em que os estádios foram construídos, não havia tecnologia suficiente para implantar esses meios que trazem benefícios para o meio ambiente. Com certeza essas obras de reforma dos estádios podem ajudar a diminuir a agressão ao meio ambiente e gerar economia”, garante Marcelo. (FD)