Anderson Tozato / O Estado do Paraná
Alunos no Colégio Agrícola
de Palmeira: ensino rural.

Desde o ano passado, aumentou em mais de 100% a oferta de cursos profissionalizantes na rede estadual de ensino. Em 2003, 13 mil alunos estavam matriculados nessa modalidade. Este ano o número subiu para 29 mil. Esses cursos têm atraído os jovens pela dificuldade que sentem para entrar no mercado de trabalho sem qualificação, ou ainda pela falta de dinheiro para pagar um curso superior. As diferentes opções de ensino abrem caminho para as mais variadas atividades, de técnicos em agroecologia à eletromecânica.

O que mais tem chamado a atenção dos jovens é a possibilidade de ter uma profissão sem ter que concluir o ensino superior. Muitos sabem que é difícil garantir uma vaga numa universidade pública, e pagar uma particular está aquém das possibilidades. Além disso, em alguns casos, os salários são grandes atrativos. O diretor do Centro Estadual de Educação Profissional de Curitiba, Edson Luís Martins, fala que os vencimentos podem variar entre R$ 800 e R$ 1,5 mil.

No Estado, os estudantes têm duas opções de estudo. Uma delas é fazer o curso técnico subseqüente. Ele pode ser feito paralelamente ao ensino médio ou depois da sua conclusão. Nesses casos, a duração média é de um ano e meio. Há ainda a possibilidade de fazer o curso integrado ao ensino médio. Essa modalidade, extinta em 1996, voltou a ser oferecida no começo deste ano no Paraná e no próximo ano deve ser oferecida por outros estados.

Franciele de Oliveira, 19 anos, faz o subseqüente em Química Industrial, único ofertado no Paraná. Conta que não conseguiu passar no primeiro vestibular na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e também não tem como estudar numa instituição particular. A solução foi partir para o profissionalizante. “Seria interessante me formar e conseguir um emprego para custear a faculdade. Quero trabalhar em laboratório, fazendo pesquisa”, conta. O professor José Viahish Júnior explica que neste curso os alunos se qualificam para trabalhar em diversos tipos de indústrias, desde as alimentícias até as que trabalham com derivados do petróleo.

Mas o profissionalizante mais procurado na unidade é o subseqüencial de eletromecânica. “Acho que é porque é mais conhecido que os outros”, opina o diretor. Este ano, começou a ser ofertado ainda a modalidade integrada que envolve a eletromecânica, química industrial e meio ambiente, com duração de quatro anos.

Iniciativa privada oferece diversas modalidades

Até 1996, os cursos de magistério e contabilidade dominavam essa modalidade de ensino. Hoje, o de contabilidade está extinto e o de magistério permanece apenas em alguns lugares. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação publicada naquele ano possibilitou a criação de novos cursos e separou o ensino médio do técnico. A iniciativa privada aproveitou a deixa e começou a investir na área, criando o pós-médio, que agora é chamado de subseqüente.

As escolas passaram a ter liberdade para observar o mercado e propor novas modalidades. O Colégio São Judas Tadeu de Curitiba acaba de lançar a formação de profissionais de conteúdo de rede. “Não existem pessoas com este tipo de formação”, afirma a coordenadora da instituição, Deise Bautzer. Segundo ela, a carga horária é espaçada e a mensalidade cabe no bolso de qualquer um.

Os colégios estaduais oferecem ainda outras alternativas de cursos. No Colégio Estadual do Paraná, em Curitiba, por exemplo, são ofertados nas áreas de comunicação (artes, rádio e TV), secretariado, informática e hospitalidade. Em Antonina será oferecido um de gestão portuária e há ainda outros que formam técnicos em zoonoses e técnicos florestais. Ao todo, o Paraná tem quatro centros tecnológicos, 14 colégios agrícolas e dois florestais.

De acordo com a coordenadora do departamento de cursos profissionalizantes da Secretaria de Estado da Educação (Seed), Sandra Garcia, o Paraná tem hoje 77 escolas estaduais que oferecem cursos técnicos concomitantes com o ensino médio ou subseqüentes, mais 99 escolas privadas, 41 instituições do sistema Senac/Senai, quatro escolas comunitárias, a ainda os cursos do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Poucos alunos

Mas, se comparado com o universo de alunos matriculados no ensino médio na rede estadual, a oferta de profissionalizantes ainda é pequena: são 420 mil contra 29 mil do técnico. Sandra comenta que no próximo ano deve aumentar o número de vagas. Com a ajuda do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), eles estão estudando a formação de uma política de desenvolvimento para a área. (EW)

Metade dos alunos atua na área

Ao todo estudam no centro 1,7 mil alunos divididos em três turnos. Cerca de 50% deles já atuam na área e querem conseguir um cargo melhor dentro da empresa. É o caso de Donizeti Antônio da Silva, 39 anos. Há seis ele trabalha em uma montadora de automóveis e agora faz eletromecânica. “Não posso fazer faculdade. Com esse curso tenho chance de ser promovido. Meu salário vai aumentar”, aposta. No próximo ano o centro vai ganhar mais dois cursos, de construção civil e eletrônica.

Cada curso na unidade tem um gasto mensal de R$ 8 mil. Mas, por enquanto, ela está recebendo o mesmo que as escolas comuns. O diretor está mantendo o centro graças aos recursos obtidos no período em que os alunos pagavam mensalidade. Ele conta que a Seed está fazendo um estudo para resolver o problema. “Mas se o dinheiro não vir logo vamos ter que fechar as portas. Aqui usamos vários tipos de materiais”, explica o diretor.

Processo seletivo

Todos os cursos do Estado são gratuitos e o processo seletivo das unidades é o mesmo. Leva em conta a renda familiar e a obrigatoriedade de o aluno ter sempre estudado em escola pública. “Não concordo com esse modelo. Por nota, quem não passou este ano tem a chance de estudar mais e conseguir numa próxima oportunidade. Já os alunos que por acaso estudaram apenas um ano em escola particular vão ter que ficar de fora”, comenta Edson. Segundo ele, os cursos também são pouco divulgados. O Paraná possui ainda outros centro de educação, em Londrina, Cascavel e Guarapuava. (EW)

Colégio Agrícola é opção para os jovens do campo

Os jovens do campo, além de buscar um lugar no mercado de trabalho, têm a chance de desenvolverem a própria propriedade. Uma das novidades este ano é o curso de agroecologia, ofertado pelo Colégio Agrícola localizado na cidade de Palmeira. “Meu pai ficou doente e eu tenho certeza que foi devido ao uso de agrotóxicos. Quero aprender a plantar sem o uso de herbicidas”, fala Andréa Knat, 21 anos, explicando seu interesse pelo curso.

Durante três semanas, eles permanecem na propriedade e na quarta ficam em casa para aplicar o que foi estudado. Ela já mudou a forma como a família fazia os canteiros da horta: “Agora usamos a metragem. Facilita a limpeza e aproveita melhor os espaços”, afirma.

Mas o conceito de agroecologia é bem amplo. O aluno aprende como desenvolver a propriedade de modo sustentável e se preocupa com o bem-estar da família e dos vizinhos. Além disso, o conhecimento e as tarefas para plantio e colheita são sempre divididos. “De certa forma, a agroecologia é uma alternativa para o pequeno agricultor que mais sofre com o pacotão tecnológico”, argumenta a professora, Rosélia Gomes.

O turismo rural é outra opção que tem chamado a atenção. Os alunos têm aulas apenas nos finais de semana. Segundo o diretor da unidade, Eduardo Kareush, o mercado tem sentido a falta desses profissionais. Só a Emater possui mil propriedades cadastradas com potencial turístico. “O aluno vai poder analisar o potencial de cada uma para fomentar a atividade, além de administrá-las”, destaca. Há duas semanas, a primeira turma se formou e muita gente já arranjou colocação no mercado.

A unidade também oferece o curso de agropecuária. Os estudantes aprendem a administrar uma fazenda, técnicas de conservação de solo, fruticultura, hortas, criação de animais e a cultura leiteira.

Dos 380 alunos, 120 são internos e recebem refeições e roupa lavada gratuitamente. Eles vêm de 50 cidades diferentes, incluindo os estados de Santa Catarina e do Mato Grosso do Sul. Ao todo, a área da escola é de 116 hectares. Nos últimos 8 anos, o governo não mandou dinheiro para reparos. “Mas a propriedade está funcionando, e conseguimos fazer melhorias”, conclui Eduardo. (EW)