Fotos: Daniel Derevecki
Dificuldades não atrapalham Terezinha e seus alunos de
primeira a quarta séries.

Um pequeno cômodo de madeira, com janelas quebradas, um vaso sanitário do lado de fora e um fogão velho cujo forno serve de gaveta para livros. Assim é a sala de aula de oito crianças que vivem na comunidade de Açunguizinho dos Três Irmãos, localizada no interior de Itaperuçu, município a cerca de vinte quilômetros de Curitiba.

No lugar, ao qual se tem acesso apenas por estradas de terra estreitas e abertas por tratores que realizam a retirada de pinus da região, a professora só consegue chegar de bote para dar aulas. Diariamente, na companhia de três filhos pequenos e de outras crianças do lugar, ela atravessa o Rio Açungui e vence a correnteza com o apoio de um cabo.

Dia começa cedo para a professora. Primeiro o perigo de atravessar o Rio Açungui com os três filhos em um bote.

?Atravesso o rio todos os dias para ir e voltar da escola. Tem que ter força e principalmente coragem para chegar de uma margem à outra. Uma vez, caí na água e foi difícil voltar para o bote. Porém, nada me faz desistir. Não tem outra professora na região e se eu não puder dar aulas as crianças ficam sem aprender a ler e escrever?, diz a professora Terezinha Aparecida da Trindade, que tem 43 anos e enfrenta a mesma rotina há 14.

A sala de aula improvisada presente na comunidade é extensão da escola municipal Paulo Ortigas de Cristo, mais conhecida como escola do Canelão. Segundo a diretora de educação de Itaperuçu, Glaucia Alberti, que na última semana acompanhou a equipe de O Estado até Açunguizinho dos Três Irmãos, os pais dos estudantes da região temem mandar seus filhos para o Canelão devido às más condições das vias de acesso. Entre arriscar a vida das crianças e deixá-las sem um estudo adequado, preferem a segunda opção.

Depois começa a longa caminhada até a ?escola? da região.

?Há algum tempo, propusemos colocar um veículo especial para fazer o transporte das crianças do Açunguizinho até a escola do Canelão. Porém, os pais não querem mandar seus filhos para lá e eu mesma temo que possam ocorrer acidentes, pois as estradas são muito perigosas. O que planejamos fazer é desmanchar a casa de madeira onde hoje funciona a sala de aula e construir outra em melhores condições. Porém, o problema só seria definitivamente resolvido se houvesse investimento na infra-estrutura das estradas. Mas, para isso, não existem recursos?, afirma Glaucia, que assumiu o diretoria de educação de Itaperuçu há seis meses e se diz angustiada e impotente diante da situação.

Estudantes de todas as séries

Acesso ao local só é feito por estradas estreitas e que foram abertas por tratores.

Na sala de aula do Açunguizinho, a professora Terezinha atende, ao mesmo tempo, estudantes da primeira a quarta séries do ensino fundamental. Ela começou a trabalhar na área de educação como auxiliar de serviços gerais, completou o ensino médio através de um supletivo e admite que tem algumas limitações na hora de ensinar. Entretanto, diz fazer tudo o que está ao seu alcance para que as crianças aprendam.

Ao terminarem a quarta série, muitas crianças da localidade param de estudar. Novamente em função das condições das estradas, elas acabam enfrentando dificuldades para ter acesso a uma instituição que ofereça ensino a partir da quinta série. Os pais dos meninos e meninas que hoje freqüentam a turma de Terezinha já demonstram preocupação.

É o caso de Benjamim Faria de Lara, pai de Maria, de 6 anos, e de Benvindinha, de 5. ?Não sei o que vou fazer depois que minhas filhas terminarem a quarta série.

Gostaria muito que elas continuassem estudando, mas é tudo muito difícil.?

Sala de aula improvisada acomoda oito crianças da comunidade.

Durante o período de aula, as crianças do Açunguizinho recebem merenda oferecida pelo município. Os alimentos – geralmente arroz, feijão, macarrão, carne e quirera -são preparados na casa de uma pessoa da comunidade e levados a pé até a sala de aula. ?Infelizmente, temos que trabalhar com o que temos, capacitando a professora Terezinha e melhorando o material didático. As estradas não nos permitem trazer outras professoras?, diz Glaucia.

Apesar da situação de calamidade, as crianças do Açunguizinho têm vontade de aprender e sonham com um futuro melhor. Demonstram carinho pela professora e se orgulham da primeiras letras que, de forma ainda um pouco tremida, começam a desenhar em seus cadernos. Exibem com satisfação seus agasalhos simples de uniforme e parecem enxergar cada aula como um acontecimento especial. (CV)