O desperdício de alimentos em todo o mundo tem impacto direto na perda da biodiversidade do planeta. Esse dado serve de alerta no Dia Mundial da Alimentação, comemorado em 16 de outubro. Estimativas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) revelam que, anualmente, os alimentos produzidos e não consumidos provocam a perda de 250 km³ de água (superficiais e subterrâneas), recurso não-renovável do qual a biodiversidade depende intrinsecamente. Esse valor é equivalente ao volume anual de água do Rio Volga – o maior da Europa e que possui extensão semelhante à do segundo maior rio brasileiro, o Paraná, que se estende por mais de 3.500 km, do Brasil à Argentina.

Além do imenso desperdício de água, anualmente a produção dos alimentos jogados fora ocupa quase 1,4 bilhão de hectares de terra, o equivalente a 28% das terras agricultáveis de todo o mundo, causando a emissão de aproximadamente 3,3 bilhões de toneladas de carbono, segundo dados do relatório “Os Rastros do Desperdício de Alimentos: Impactos sobre os Recursos Naturais”, divulgado pela FAO em 2013. No Brasil, a expansão da fronteira agrícola tem impacto direto na perda da biodiversidade. Dados do governo federal indicam que o país tem índices de desmatamento que chegam a 21 mil km 2 ao ano, boa parte dele causado pela transformação de áreas naturais em pastagens e grandes plantações.

O texto explica ainda que, a cada ano 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados, a um custo econômico aproximado de cerca de US$ 750 bilhões. Por desperdício, o relatório considera perdas na fase inicial da produção, manipulação, pós-colheita e armazenagem (responsáveis por 54% do lixo gerado), bem como aquelas que ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo. No Brasil, um dos cinco maiores produtores de alimentos no mundo, estima-se que 20% das perdas aconteçam no processamento culinário e em virtude dos hábitos alimentares, conforme dados revelados pela ONG Banco de Alimentos.

O relatório aponta algumas dicas para que sejam realizadas mudanças simples pelos consumidores finais e que podem reduzir o desperdício, como planejar as refeições em casa para não comprar mais do que é necessário, utilizar os alimentos mais antigos antes, congelar aqueles que não serão consumidos em breve, além de pedir o que sobrar de suas refeições nos restaurantes para poder consumi-las posteriormente.

Alternativas para evitar o desperdício

No Brasil, existe um movimento que incentiva a utilização integral dos alimentos para evitar o desperdício. É o Gastronomia Responsável, criado em 2010 pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, na capital paranaense, e cujos restaurantes participantes comercializam os chamados ‘pratos responsáveis’. As receitas que fazem parte do movimento possuem impacto reduzido para o meio ambiente e seguem os quatro princípios do movimento: usar integralmente os alimentos, utilizar alimentos orgânicos, priorizar fornecedores locais para reduzir a emissão de CO 2 e não utilizar espécies ameaçadas de extinção.

Além de ir a um dos 50 restaurantes participantes – distribuídos em oitos estados do Brasil – e optar pelos ‘pratos responsáveis’, o público também pode participar do movimento criando suas próprias receitas e compartilhando-as no site www.gastronomiaresponsavel.com.br . O chef curitibano Celso Freire, curador do movimento, lembra que o site reúne dicas responsáveis para aproveitamento dos alimentos.

“As cascas dos alimentos, por exemplo, podem ser utilizadas em outros pratos, como farofas e doces, como é o caso da casca de banana. Por outro lado, as folhas de legumes, como da beterraba, podem ser utilizadas para incrementar saladas”, indica o chef.

Outra iniciativa com o mesmo propósito é o programa Mesa Brasil, realizado pelo Sesc Paraná. A ideia é buscar alimentos em locais nos quais eles não serão mais utilizados e levá-los a instituições, como orfanatos e creches.

A Prefeitura de Curiritba, por meio da Secretaria de Abastecimento, oferece o curso “Aproveite melhor os alimentos”, no qual grupos de interessados apredenm como utilizar na culinária domésticas as diversas partes de frutas e verduras. Orientado por nutricionistas, o curso é gratuito e está disponível em todas as regionais.