A manifestação reuniu cerca de 600 pessoas.

Funcionários das casas de bingo de Curitiba protestaram na tarde de ontem com faixas e caminhão de som contra a decisão do governador Roberto Requião, que determinou o fechamento das casas na semana passada. A manifestação, que reuniu cerca de 600 pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar, teve início no Ventura Bingo, no Bigorrilho, passou pela Boca Maldita e terminou no Palácio Iguaçu. A intenção era que uma comissão fosse recebida pelo governador Roberto Requião, o que não aconteceu. “Bingo é coisa do capeta, e se hoje recebermos os bingueiros, amanhã será a vez dos maconheiros e traficantes de cocaína”, disparou o governador, pela manhã.

Requião afirmou que não iria ouvir representantes de uma estrutura que “lava dinheiro.” Como solução para as pessoas desempregadas, propôs que as antigas casas de bingo fossem transformadas em bailões para a terceira idade ou em rodízios de pizza. “Quero as pessoas empregadas e com carteiras registradas, mas fora dos bingos”, falou.

De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Administradoras de Bingos e Casas de Videoloterias do Paraná, cerca de quatro mil pessoas atuam nessa atividade e estariam desempregadas com a determinação do governador. É o caso de Jocilene Mariotto, 37 anos, que trabalha no Palácio Center Bingo desde julho do ano passado. “Eu estava desempregada há quatro anos. Tenho uma criança de cinco anos para sustentar”, alegou.

Para o assessor sindical Cláudio de Tarso Koppe, a intenção do protesto era pedir um pouco de consciência por parte do governador. “Que ele (Requião) encontre uma solução pacífica para o problema. E se houver mesmo tráfico de drogas ou lavagem de dinheiro, como ele insiste em dizer, que seja criada uma comissão e as irregularidades sejam apuradas. Os trabalhadores das casas de bingo também gostariam de participar dessa comissão”, comentou.

Comissão

A manifestação durou quase três horas e se encerrou apenas quando uma comissão do governo – o procurador-geral do Estado, Sérgio Botto de Lacerda, o ouvidor e corregedor do Estado, Luiz Carlos Delazari, e o diretor-geral da Casa Civil, Rogério Helias Carboni – aceitou receber alguns representantes do sindicato. Na ocasião, os funcionários das casas de bingo entregaram um abaixo-assinado e uma carta, pedindo a manutenção da atividade. “Quanto ao fechamento dos bingos, não haverá retorno por parte do governo. Não concordamos com atividades ilícitas. Estamos conscientes de estarmos cumprindo uma lei”, afirmou Delazari.

Repasse ao Serlopar

Para o gerente de Recursos Humanos de duas casas de bingo de Curitiba, Celso Andrade, além da questão da perda de empregos, o que também agrava é o fim do repasse de verbas das casas para o Serviço de Loterias do Paraná (Serlopar). Conforme ofício do Serlopar, de dezembro do ano passado a fevereiro deste ano, apenas as atividades de videoloteria e tribingo arrecadaram juntas mais de R$ 2 milhões e foram repassadas a Secretaria do Trabalho, Emprego e Promoção Social, através da Serlopar. O total arrecadado – incluindo outros jogos como Pimba, Roda da Sorte, Totobola – é de R$ 3.092.880,52. Os números foram confirmados pelo Palácio Iguaçu.

Bandidão teria ligação com jogo

O promotor de Justiça de Mato Grosso, Mauro Zaque, integrante do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado, afirmou ontem que existe estreita ligação dos negócios de João Arcanjo Ribeiro – o Comendador Arcanjo – com o jogo no Paraná. O promotor é o responsável pelas investigações em relação aos negócios ilegais de “Comendador Arcanjo”, considerado chefe do crime organizado em Mato Grosso. “Os braços do Arcanjo eram extensos no Paraná e ele operava no Estado no setor de máquinas caça-níqueis”, disse Zaque à assessoria de comunicação do governo do Paraná, em entrevista concedida por telefone.

Mauro Zaque contou que quem montou os negócios do “Comendador Arcanjo” no Paraná foi o uruguaio Júlio Baehs, um dos maiores operadores de máquinas caça-níqueis. Explicou que havia uma articulação com a exploração de bingos. “A minha experiência em investigações me provou que, em princípio, os bingos não são um mal. Mas em regra estão vinculados ao crime organizado. Têm uma íntima relação”, afirmou.

O promotor mato-grossense explicou ainda que bingos e caça-níqueis são utilizados para a demarcação de território de atuação do crime organizado e para lavagem de dinheiro. “E descobri ainda que há, no Paraná, vínculos entre o Comendador Arcanjo e o doleiro Alberto Youssef”, garantiu o promotor de Justiça.