O Hotel Johnscher, desativado em 1975, vai renascer. A construção imponente da rua Barão do Rio Branco está sendo restaurada e, em julho próximo, o hotel voltará a atender ao público, prometendo reviver o glamour das décadas de 40 e 50, quando o Johnscher era um dos endereços mais elegantes da cidade.

O prédio do hotel foi doado à Prefeitura em 1995 e está sendo recuperado pela iniciativa privada. A rede San Juan de Hotéis, que administra outros estabelecimentos no sul do país, é responsável pelas obras de restauro e irá administrar o novo Johnscher. A empresa foi escolhida em licitação realizada pelo município há dois anos. Ela assinou um contrato de concessão de uso, com direito de explorar comercialmente o hotel por 35 anos.

Construído em estilo eclético, como a maioria das edificações da cidade no início do século passado, o Johnscher irá inaugurar em Curitiba uma nova modalidade de estabelecimento hoteleiro. Será o primeiro hotel de charme da cidade ? classificação adotada para identificar hotéis em que o ambiente aconchegante é tão importante quanto a hospitalidade. Muito conhecidos na Europa, os hotéis de charme ainda não são muito comuns no Brasil, onde existe cerca de 30 estabelecimentos com estas características.

O projeto de restauro da edificação, assinado pelo arquiteto Humberto Fogassa, recupera todos os detalhes que a caracterizavam. Como o imóvel ficou por mais de 20 anos sem uso e sofreu uma grande deterioração neste período, a maior parte destes detalhes foi recuperada graças à documentação disponível na Casa da Memória e no Ippuc.

O prédio do Johnscher está classificado como Unidade de Interesse de Preservação (UIP) do município e foi doado à Prefeitura em troca de potencial construtivo. Com uma área construída de 610 metros quadrados, tem três pavimentos e faz parte de um conjunto de edificações do eixo Barão-Riachuelo que estão ligados à história da cidade.

Em frente ao hotel está, por exemplo, o antigo Palácio do Governo (atual sede do Museu da Imagem e do Som), e mais adiante o Palácio Rio Branco (hoje a Câmara Municipal) e o Paço Municipal (que abriga o Museu Paranaense). Por isso, a recuperação do Johnscher está sendo saudada como uma importante conquista para a cidade. ?Estamos, aos poucos, resgatando a memória de Curitiba?, diz o prefeito Cassio Taniguchi.

Antigo e moderno ? Após as obras de restauro e reforma, o Johnscher passará a contar com 24 apartamentos, bar, restaurante (aberto ao público), sala de reuniões. O mobiliário, em imbuia, será uma reprodução de móveis de época. De acordo com o arquiteto Fogassa, um dos maiores desafios do projeto foi conciliar a preservação dos aspectos arquitetônicos originais da edificação com as necessidades de um hotel moderno, como elevadores, sistema de climatização central, TV a cabo, suporte para informática e acesso à Internet.

Houve também o cuidado de recriar os ambientes que faziam a fama do Jonhscher, como o amplo saguão com lareira e o restaurante onde as famílias curitibanas costumavam se reunir em datas importantes. Uma destas ocasiões era o Natal, quando era montada uma grande árvore, em torno da qual todos se reuniam para trocar presentes e participar de uma das mais concorridas ceias da cidade.

De acordo com Carlos Ernesto Lobo, da Planotel Arquitetura e Consultoria Turística e Hoteleira, que está executando a obra de restauro e assessorando o grupo San Juan no projeto do novo Johnscher, o público alvo do hotel serão os executivos e artistas, ou como ele diz, ?gente que gosta de hospedar-se em lugares agradáveis e não em hotéis que tem cara de hospital?.

Uma das inovações será, segundo Lobo, um inédito serviço de mordomo, que será colocado à disposição dos hóspedes. ?Sua atividade básica será, por exemplo, fazer e desfazer malas, passar roupas, providenciar reservas em restaurantes, comprar ingressos de teatro, mandar flores?, explica ele.

Hotel era referência na cidade
O Hotel Johnscher começou a funcionar em 1917, quando a família Jonhscher, de imigrantes alemães, estabeleceu-se em Curitiba. Eles vinham de Paranaguá, onde tinham uma hospedaria, e instalaram o hotel num imóvel pertencente à família Parolin, onde anteriormente estava o Hotel Paris ? ?de muito má fama?, segundo registrou o historiador Júlio Moreira.

A reputação duvidosa, no entanto, não impediu que os Johnscher fizessem do local um dos pontos de atração da cidade. O prestígio do hotel foi construído gradativamente e, a partir de meados da década de 20, ganhou status de estabelecimento de primeira classe.

Nesta época, o eixo da rua Barão do Rio Branco, antiga rua da Liberdade, firmava-se como um novo polo de desenvolvimento da cidade. Ali passava a primeira linha de bonde da Curitiba e concentravam-se os edifícios públicos. Por isso, a Barão também era conhecida como a ?rua do poder?. A proximidade com a estação ferroviária fazia com que todos os visitantes ilustres que chegavam passassem por ali e procurassem acomodação no Johnscher.

O hotel ficou conhecido sobretudo pelos bons serviços prestados aos hóspedes, tratados com cordialidade. O ambiente também ajudava: era considerado refinado e acolhedor. Além disso, o hotel tinha uma cozinha excelente e o jantar no restaurante contava com música tocada por uma orquestra contratada especialmente para animar os freqüentadores.

A família Johnscher era proprietária ainda de um outro hotel na cidade, igualmente bem conceituado: o Grande Hotel Moderno, na rua XV de Novembro. Ele também foi desativado na década de 70, depois de viver anos de glória. Era considerado o hotel mais luxuoso de Curitiba.