A possibilidade de lotação dos hospitais de Curitiba e de algumas cidades do Estado com gestão plena de saúde – que recebem os recursos repassados diretamente do Ministério da Saúde (MS) e continuam atendendo pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – é uma das principais preocupações das representações da classe no Estado. Esse questionamento voltou a aparecer após a entrada em vigor da medida da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), que limita o teto financeiro para as demais unidades do Estado a uma média de atendimentos por mês.

Essa média foi baseada em valores repassados pelo SUS no primeiro trimestre do ano passado. Apenas 12 cidades estão com a gestão plena: Curitiba, Maringá, Londrina, Dois Vizinhos, Pato Branco, Francisco Beltrão, Foz do Iguaçu, Terra Boa, São Jorge do Patrocínio, Umuarama, Mandaguari e Apucarana. Os demais 387 municípios receberão o orçamento repassado pela Sesa, que respeita a média estipulada. Os atendimentos realizados acima da média não serão restituídos.

Sem atendimento de qualidade, os pacientes se encaminham para outras localidades. Com esse pensamento, as representações estaduais já começam a discutir manobras para evitar que ocorra uma sobrecarga nas unidades das principais cidades do Estado.

A presidente do Conselho Estadual de Saúde do Paraná, Joelma de Souza, confirma a preocupação com a assistência aos pacientes. Ela conta que estão discutindo ações para evitar constrangimentos no atendimento. “O problema não acontece somente em Curitiba, é em todo o Estado. As reclamações não param. Estamos estudando o que vamos fazer. Se os pacientes não forem atendidos em suas regiões, poderão ser transferidos”, explica.

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), Donizetti Dimer, afirmou que durante a reunião com a Sesa surgiu a preocupação dos médicos com relação a esse problema. “É muito complicado. A grande vítima dessa situação é a população. Os médicos também estão desconfortados, porque não vão deixar de prestar socorro, mesmo sem estarem recebendo por isso”, diz. “Mas com essa medida, muitos hospitais vão alegar que não recebem mais pacientes e os encaminharão para os grandes centros”, completa.

Atendimentos

Atualmente, de acordo com a Sesa, existem 511 hospitais no Paraná. Desse total, 469 prestam serviços através do SUS e apenas 42 não os realizam. A superintendente da Secretaria Municipal de Saúde, Edimara Seeg Mueller, explica que, em Curitiba, nas principais unidades o atendimento continua normal, pelo menos por enquanto. “No momento estamos atendendo a demanda que chega aos hospitais. Cerca de 30% das internações das unidades da capital são destinadas a pacientes de outras localidades. O problema pode acontecer caso esse fluxo aumente muito em pouco tempo”, diz.

Em Londrina, onde a maioria das 38 unidades de saúde realiza atendimento pelo SUS, as reclamações sobre o atendimento continuam. De acordo com o secretário municipal de Saúde, Sílvio Fernandes, por ser o segundo pólo de atendimento à saúde do Estado, o número de pacientes é muito alto. “Pessoas de outras cidades se encaminham para Londrina e o movimento nos hospitais é muito grande. Por enquanto estamos conseguindo suprir a demanda”, explica.

Atendimento em posto de saúde demora

Usuários da Unidade de Saúde Moradias da Ordem, no bairro Tatuquara, em Curitiba, reclamam da demora dos atendimentos realizados no local. Segundo eles, há poucos médicos para muitos pacientes.

“A unidade é utilizada pelas comunidades de várias vilas situadas ao redor. É muita gente em busca de atendimento e os médicos em serviço geralmente não dão conta de todos”, comenta o aposentado Ubirajara Alves. “Levei quatro dias para conseguir ser atendido por um clínico geral e agora aguardo que me encaminhem para um cardiologista.”

A auxiliar de cozinha Helena Maria da Silva diz que, apesar de os funcionários do posto serem atenciosos com os pacientes, os usuários precisam estar quase morrendo para ser atendidos pelos médicos. “Se a pessoa tiver um problema grave, morre antes de ser atendida”, reclama.

Há um ano e meio, a diarista Márcia Aparecida Ferreira de França descobriu que tinha um problema no útero e que precisava se submeter a uma cirurgia. Até hoje ela não foi operada. “São consultas atrás de consultas e nunca sou encaminhada para cirurgia”, conta. Ontem, Márcia perdeu um dia de trabalho para conseguir uma nova consulta com um clínico geral. Ela chegou à unidade no início da manhã. “Como trabalho de diarista, não tenho nem como levar atestado médico para não ter o salário descontado. Cada vez que tenho que vir à unidade para me consultar, perco todo o dia de trabalho. O dinheiro que deixo de ganhar faz bastante falta.”

Unidade

Atualmente, na Unidade Moradias da Ordem, que funciona das 7h às 17h, dois médicos estão em atividade. A autoridade sanitária local, Maria Cristina Tanaka Arai, esclarece que há vaga para mais dois médicos, mas que é difícil encontrar profissionais dispostos a trabalhar no local devido ao fato de que a unidade fica em um bairro considerado distante do centro da cidade. Segundo Maria, muitos médicos entram na unidade, ficam por um tempo e, quando arrumam outro emprego, acabam indo embora. No local, casos mais graves possuem prioridade no atendimento.

Prefeitura

A assessoria de imprensa da Prefeitura de Curitiba informa que, no próximo dia 25, 450 novos profissionais, sendo 110 médicos, vão ser chamados para integrar a rede municipal de saúde existente. Para incentivá-los a atuarem em locais mais distantes, como a região sul da cidade, existe um programa que fornece uma gratificação de 45% sobre o salário dos profissionais, além de 30% sobre o resultado dos trabalhos realizados. (Cintia Végas)

Ex-ministro critica sistema de saúde

“O sistema de saúde brasileiro está muito bem formulado. Porém, é subfinanciado.” A declaração é do cirurgião cardíaco e ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, que ontem participou da abertura do 31.º Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardíaca. O evento termina amanhã no Estação Convention Center, em Curitiba.

Segundo Jatene, o sistema é baseado na descentralização e na participação popular, que tem como base os programas de agente comunitário e de saúde da família. “O sistema atual promove o acesso inicial da população à saúde e, através dos agentes, vincula os integrantes da comunidade aos profissionais médicos.”

Entretanto, Jatene afirma que o sistema precisa de uma retaguarda de especialistas, que atuem dentro das comunidades e não remetam a população aos hospitais, o que gera filas e outros transtornos. “Por ser subfinanciado, o sistema começa a ter dificuldades referentes à distribuição de medicamentos e atendimento de doenças mais complexas”, diz. “As pessoas falam que o sistema tem problemas de gestão, mas o grande problema mesmo é a ausência de maiores recursos.”

Algumas causas apontadas por Jatene para a carência de recursos são a corrupção e a sonegação realizadas pela própria sociedade. “A sociedade sonega porque não tem os serviços de que necessita, mas não percebe que é a própria sonegação que leva a essa situação. Ou a sociedade como um todo adota um processo de correção ou não teremos mais saída.”

Universidades

O ex-ministro também critica as deficiências dentro das universidades de Medicina, o que em sua opinião gera profissionais despreparados e maiores gastos com tecnologia. “No Brasil, há muitos gastos desnecessários e excessivos com a utilização de avanços tecnológicos. Muitos exames que não precisariam ser realizados são solicitados por falta de preparo dos profissionais. Esse é um ônus tanto para o sistema público quanto para o privado.”

Jatene foi ministro da Saúde no governo Fernando Collor de Mello até o início dos anos noventas. Posteriormente, ocupou novamente o cargo durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Como cirurgião cardíaco, já operou sozinho cerca de 20 mil corações e chefiou equipes em cerca de 100 mil procedimentos.