Enquanto os números de fumantes caem graças a diversas campanhas antitabagistas, o álcool, a droga mais consumida e que mais mata em todo mundo, continua com pouco ou nenhum controle, ao menos no Brasil. Na última sexta-feira, durante a I Conferência Pan-Americana de Políticas Públicas sobre o Álcool, em Brasília, foi anunciado que o consumo de bebidas alcoólicas por brasileiros cresceu 70,5% nos últimos 35 anos. Enquanto isso no Chile, Argentina, Canadá e Estados Unidos, o consumo decresceu em 57,6%, 48,2%, 11,1%, 15,1%, respectivamente. Os números são da Organização Mundial de Saúde (OMS).

 No entanto não foram apresentados números dividindo o consumo por estado ou por cidades. "Mas quem atende as vítimas do álcool consegue perceber que o aumento no consumo se intensificou nos últimos anos", revela Amadeu, membro do Alcóolicos Anônimos (AA) do Paraná, que pelo princípio de anonimato do grupo, preferiu não divulgar o nome completo. Ele conta que, em 1992, Curitiba tinha 120 grupos de AA, e que em 2005 são 300.

Ao mesmo tempo, Amadeu destaca que o aumento pela procura do AA não se deve apenas ao aumento de consumo, mas também à maneira como a sociedade tem encarado o problema. "Antes o alcoolismo era uma doença moral, um tabu. Agora é enfrentado como uma verdadeira doença, que precisa de tratamento para ser curada", diz. Ele aposta que esse fator fará com as pessoas encarem de uma maneira mais natural as campanhas públicas para consumo consciente.

Mulheres e mais jovens

Mesmo não se baseando em pesquisas oficiais, mas nos longos anos que têm de AA, Amadeu afirma que o perfil do consumidor de álcool em Curitiba tem se ampliado. "Antigamente quem procurava ajuda eram homens na faixa de 40 anos e que tinham bebido a vida inteira", diz. "Agora, além de termos jovens de até 14 anos nos grupos, esse universo que era predominantemente masculino, está vendo crescer rapidamente o número de mulheres", aponta.

Pesquisa da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) realizada entre alunos do Ensino Médio mostrou que o número feminino de "apreciadores" de álcool já é mais de 50% do total no Brasil, o que pode fazer com que a perspectiva contato por Amadeu piore muito nos próximos anos. "As políticas públicas para combater o abuso de álcool, além de muito tímidas e lentas, não trabalham com os jovens. É desde cede que se aprende a beber no Brasil", acredita.

Universitários brigões

Um estudo inédito sobre os hábitos de consumo da juventude brasileira e os comportamentos de risco associados ao álcool, divulgada no mês passado, foi realizada na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). A tese de doutorado da diretora de Prevenção e Tratamento da Senad, Paulina Duarte, mostrou que nada menos do que 22,4% dos chamados bebedores intensos se envolveram em brigas, enquanto apenas 3,6% dos que não consumiram álcool criaram confusão. "Aqueles que mais bebem são os que portam armas brancas ou de fogo. São também os que se esquecem de colocar o cinto de segurança", afirma a diretora. O número dos que não se protegeram enquanto guiavam o carro é o triplo entre os que bebem e os que não bebem. Por ser o primeiro estudo desse tipo no país, o levantamento serve como fonte para discussão de políticas públicas nacionais.