Seqüestrada junto com seu marido e dois filhos, em 1978, numa ação conjunta entre agentes brasileiros e uruguaios, a socióloga Lilian Celiberti foi vítima do único caso comprovado de participação de dois sistemas repressivos de países sul-americanos numa mesma missão. Hoje militante feminista e integrante do Comitê Internacional do Fórum Social Mundial, ela esteve em Curitiba para participar do Fórum Social do Mercosul. 

A história de Lilian retrata tempos em que, segundo ela, a integração dos países do Cone Sul tinha o propósito de eliminar qualquer reivindicação social e sustentar regimes autoritários. ?Naquela época toda pessoa que fizesse algum protesto por causas sociais era rotulado de comunista e perseguido pelas autoridades?, disse.

De acordo com a socióloga, a Operação Condor, como foi nomeada a ação conjunta entre várias ditaduras sul-americanas, é considerada por muitas pessoas como ?um bando de loucos agindo por conta própria?, mas ela nega essa tese. ?Era tudo feito dentro de uma doutrina de segurança nacional que envolvia o interesse desses países?, explicou.

Apesar da lei de anistia, que beneficiou militares de nações que passaram por períodos de ditadura, Lílian acredita que a situação melhorou na América do Sul. ?Se hoje há repressores presos no Chile, no Uruguai e na Argentina, é porque muitas pessoas não deixaram de lutar para que a justiça fosse feita?, afirmou.

Seqüestro

Depois de dois anos e meio presa no Uruguai e três anos vivendo na Itália como exilada, Lilian decidiu voltar para a América do Sul e continuar sua militância. No dia 12 de novembro de 1978, ela, seu marido, Universindo Diaz, e seus filhos, Francesca e Camilo, então com 3 e 6 anos, foram seqüestrados por policiais brasileiros e uruguaios na Rodoviária de Porto Alegre, cidade que a família queria estabelecer residência. ?Durante a ação, os policiais brasileiros ficaram surpresos por nos ver com crianças. Eles ainda tinham aquele estereótipo de que militantes eram terroristas sem família. Por outro lado, os uruguaios nem se espantaram. Estavam acostumados a seqüestrar crianças?, disse.

Encapuzados, eles foram encaminhados para uma delegacia, onde foram torturados. Depois, seguiram para o Uruguai. ?Quando passamos a fronteira em Chuí, trocamos de carro, seguindo numa caminhonete. Os policiais simularam um fuzilamento. Foi o momento mais difícil porque minhas crianças estavam deitadas na parte de trás do veículo e escutaram tudo aquilo. Meu filho ainda lembra e teve raiva do Uruguai por muito tempo?, recordou.

Imprensa teve papel importante na volta de Lilian

 A ação só foi descoberta pela imprensa porque Lilian soube iludir os seqüestradores. Para retornar ao Brasil, ela mentiu sobre uma reunião de militantes, que seria realizada em seu apartamento alguns dias depois. ?Na presença dos agentes, liguei para companheiros em Paris e usei códigos para alertá-los.?

No dia marcado, o repórter Luiz Cláudio Cunha, da revista Veja, e o fotógrafo João Baptista Scalco, da Placar, chegaram no local indicado e surpreenderam os agentes. ?O Scalco ainda reconheceu um dos policiais brasileiros, mas não lembrou o nome na hora?. Depois, o fotógrafo o identificou como Didi Pedalada, jogador de futebol do Internacional e que já tinha atuado pelo Atlético Paranaense.

Depois do incidente do apartamento, segundo ela, não demorou muito para que os jornalistas montassem o quebra-cabeça. A mãe de Lilian também passou a protestar pelo desaparecimento da filha e logo Francesca e Camilo, os filhos, foram libertados. Já a socióloga e seu marido foram acusados de entrar de carro no Uruguai com armas de fogo, viraram presos comuns e foram libertados após cinco anos.

Didi Pedalada e João Augusto da Rosa, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), foram condenados por abuso de poder e cumpriram seis meses de detenção. Já o chefe do Dops gaúcho, Pedro Seelig, foi absolvido por falta de provas. Devido a uma lei que protege os repressores da ditadura no Uruguai, nenhum dos agentes uruguaios foi processado pela ação.