O caminhão multado três vezes passou ontem,
em Curitiba, por um teste de velocidade.

Um caminhão que não consegue ultrapassar 87 km/h em uma subida leve foi multado três vezes, no último mês de agosto, por estar em alta velocidade. O radar localizado na altura do número 1.486 da Avenida Wenceslau Braz, sentido BR-116-Portão, em Curitibba, indicou 104 km/h, 118 km/h e 86 km/h, em três dias diferentes, no mesmo ponto. Depois de entrar com diversos recursos junto à Urbs, sem sucesso, o proprietário do veículo, Márcio Antonio Simas, procurou a reportagem de O Estado para denunciar o fato. Ontem, foi feito um teste com o caminhão, no mesmo local onde foi multado. A velocidade máxima atingida, mostrada pelo tacógrafo do veículo, foi de 87 km/h – que o radar acusou como 80,77 km/h.

O teste foi feito na presença de técnicos da Urbs, da Consilux – empresa responsável pelos equipamentos de aferição -, agentes da Diretran e motoristas profissionais. Também estava presente o diretor de trânsito de Curitiba, Lanes Randal Prates. De acordo com Prates, o radar, que foi instalado em junho passado, passou por diversas inspeções do Inmetro.

Etapas

O teste foi feito em duas etapas. Na primeira, o próprio Márcio, dono do caminhão e da empresa de transporte de resíduos que o utiliza, dirigiu o veículo. Com o trânsito normal na Wenceslau Braz, às 15h, Márcio saiu com o Mercedes Benz modelo 1218, placas AFH 2464, com a caçamba vazia, da quadra onde termina a Rua Brigadeiro Franco, cerca de 550 metros antes do radar.

Na presença da reportagem e de um motorista profissional da Urbs, que o acompanhavam no veículo, Márcio empreendeu o máximo de velocidade possível. Na primeira vez em que passou pelo radar, o tacógrafo marcou 72 km/h. O radar acusou 68,02 km/h. Na segunda vez, alcançou novamente 72 km/h, enquanto o equipamento acusou 66 km/h.

Via livre

A segunda etapa “forçou” ainda mais o veículo. Desta vez, quem dirigiu foi Alceu Batista de Campos, motorista profissional, funcionário da Urbs e da Auto Viação Curitiba. Agentes da Diretran bloquearam o trânsito, deixando a via livre para o caminhão, que partiu da esquina com a Rua Luiz Gasparin, a cerca de 800 m do radar. Até mesmo o semáforo foi liberado para que o veículo não precisasse parar nem reduzir. Foram cinco testes, dos quais dois foram descartados porque, apesar do bloqueio da Diretran, outros veículos acabaram entrarando na via e obrigaram o motorista a reduzir a velocidade.

Nesta etapa, o Mercedes Benz atingiu, conforme mostrava o tacógrafo, 85 km/h na primeira vez, 86 km/h na segunda e 87 km/h na terceira vez em que passou em frente ao radar. O equipamento acusou 78,68 km/h na primeira vez e 80,77 na terceira – na segunda, a aferição não “pegou” o veículo. “Forcei o máximo que deu”, atestou o motorista da Urbs. “Impossível correr mais, mesmo com a pista livre”, afirmou.

Márcio Simas lembrou, ainda, que ao ser multado, o caminhão estava com a caçamba carregada – o que dificulta ainda mais alcançar alta velocidade. “Para não haver dúvida, quis fazer o teste com a caçamba vazia. Eu tinha certeza que o equipamento estava errado. Não é possível chegar nem a 90 km/h nesse ponto, conforme ficou provado agora”, comentou.

“Quero que ela admita o erro”

Em setembro passado, Márcio Antonio Simas procurou a reportagem de O Estado para denunciar o que ele acreditava ser um erro da Diretran. Ele mostrou as três multas que recebeu por excesso de velocidade, no radar da Avenida Wenceslau Braz, onde a velocidade máxima permitida é de 60 km/h. As velocidades indicadas foram 104 km/h, 118 km/h e 86 km/h, cometidas, segundo as notificações, nos dias 11, 20 e 29 de agosto de 2001. Segundo Simas, era impossível o caminhão Mercedes Benz, modelo 1218, ter atingido tais velocidades, já que o radar está localizado em uma subida. A matéria foi publicada em 25 de setembro.

Márcio contou que entrou com recurso junto à Urbs, indeferido nas três instâncias. O caminhão teve que ficar parado porque o licenciamento e o seguro obrigatório venceram no dia 19 de setembro, e Márcio se recusou a pagar as multas que somam R$ 1.276,93 – valor que consta no boleto de pagamento, juntamente com o licenciamento e o seguro. “Só quero que a Urbs admita este erro. Tudo bem que existam motoristas que fazem trapalhadas no trânsito, mas a Urbs também tem que admitir quando faz besteira”, disse.

Na época, o diretor de trânsito de Curitiba, Lanes Randal Prates, afirmou que o radar em questão havia sido instalado em 21 de junho de 2001. “O rigor na implantação é ainda maior do que na manutenção. Nem este nem qualquer outro equipamento de radar apresentou problema”, garantiu. “O equipamento é matemático e só atua dentro da técnica estabelecida”, defendeu Prates. (BM)

Urbs pediu vistoria prévia

A pedido da Urbs, antes do teste realizado à tarde, o caminhão passou por uma vistoria ontem de manhã, na sede da concessionária Divesa, no bairro do Atuba. A vistoria no Mercedes Benz 1218, placas AFH-2464, de Márcio Antônio Simas, também foi acompanhada pela reportagem.

“Quero fazer tudo que for necessário para provar que o que está acontecendo é uma injustiça”, disse Márcio. Durante a vistoria, feita pelo encarregado da oficina mecânica da Divesa, Benedito Cândido Xavier, foram analisados o lacre da bomba injetora do veículo e o diferencial -que é a relação entre as peças coroa e pinhão. Segundo Benedito, foi constatado que o diferencial do caminhão é original: sete dentes de pinhão por 43 de coroa.

“Isso indica que o caminhão tem bastante força, mas não pega muita velocidade”, explicou o encarregado. Também foi constatado que a bomba injetora estava corretamente lacrada, o que indica que provavelmente o lacre não foi alterado para que o veículo tivesse capacidade de pegar maior velocidade.

“Na minha opinião, um caminhão nessas condições nunca teria capacidade de pegar 118 km/h em uma rampa”, opinou o mestre da oficina mecânica da Divesa, Mário Sangaletti, que acompanhou a vistoria. “Nem em trânsito normal o veículo pega uma velocidade tão alta. O caminhão utiliza diferencial reduzido, o que impossibilita uma velocidade tão alta.” O laudo da vistoria vai ser enviado para análise ao Diretran. (Cintia Végas)

Diretor de trânsito também acompanhou

O diretor de trânsito de Curitiba, Lanes Randal Prates, acompanhou o teste de ontem com o caminhão Mercedez Benz de Márcio Simas, o mesmo que havia sido multado três vezes no radar da Wenceslau Braz. Prates esteve presente durante as três horas de duração dos testes. Ao final, um veículo da Urbs passou duas vezes em frente ao equipamento para comparar também a velocidade mostrada no velocímetro do carro e a medição acusada pelo radar.

A diferença entre os dois números é normal, explicou Prates. “Trabalhamos com a margem máxima de erro permitido na aferição, que é de 3 km/h”, afirmou. O carro-teste da Urbs, por exemplo, passou a 29,1 km/h, de acordo com o velocímetro, e o radar acusou 29,7 km/h.

Nos autos de infração, segundo Prates, a velocidade considerada é igual à velocidade medida menos sete. Um exemplo está em uma das multas que Márcio Simas recebeu. No radar da Wenceslau Braz, a velocidade regulamentada (máxima permitida) é 60 km/h. O radar acusou 104 km/h e a velocidade considerada para emissão do auto de infração foi de 97 km/h.

Em relação ao teste de ontem, o diretor de trânsito afirmou apenas que “o equipamento mede a velocidade em que o veículo está”. (BM)