Alguns usuários chegam de madrugada,
mas não conseguem a senha.

A insatisfação dos usuários da Unidade de Saúde São Domingos, em Curitiba, culminou ontem com a denúncia da doméstica Lindinalva Monteiro, que há dois dias aguardava por uma consulta para sua filha, Cássia Monteiro, de 7 anos. Mesmo apresentando diarréia e vômitos, a menina não conseguiu atendimento médico.

“Eles (funcionários da unidade) colocam a senha num pacote e depois sorteiam e só com sorte a gente consegue ser atendido”, reclamou. Indignada com o novo sistema de distribuição de senha, Lindinalva lembrou que não é a primeira vez que deixa de ser atendida no posto de saúde e que chegou a faltar ao serviço para ficar com a filha.

O aposentado André Bernardin Brito, que tem câncer no intestino, contou que chegou ontem às 6h e não conseguiu pegar senha. “Preciso de remédio para dor e eles dizem que não vão dar se eu não consultar. Mas não consigo ser atendido”, lamentou. Basta entrar no lugar e as histórias de tempo de espera e de atendimento começam a surgir. Apesar do retrato deprimente de pessoas doentes aguardando consulta, a recepcionista Carmem Lúcia Farias Ribeiro atribui a situação a “um problema social”. Segundo ela, as pessoas chegam muito cedo na unidade e a região, de fato, é de risco. Por isso, em vez de distribuir senha por ordem de chegada, foi adotado um sistema de distribuição aleatória.

O médico Francisco Oliveira confirmou que a mudança foi para diminuir os risco de assalto e até ser mais justo com os usuários da unidade. “As pessoas estão avisadas que não precisam chegar cedo”, disse. Já a recepcionista do posto afirma que a demanda é grande, entre 150 e 180 pessoas/dia, e “como não temos condições de atender todos, fazemos uma triagem e priorizamos as emergências”. Francisco informou que cada um dos cinco médicos atendem entre trinta e quarenta pessoas.

Maiorias

O novo sistema de distribuição de senha foi adotado pela Unidade de Saúde no início de março, em consenso com o Conselho de Saúde. Segundo Carmem, numa pesquisa realizada com 362 pessoas, trezentas foram favoráveis à mudança e o restante contra. No entanto, em consulta feita pela reportagem do Paraná-Online, a maioria dos pacientes presentes ontem disse que não está satisfeita com a distribuição de senhas. Arthur Brasileiro, desempregado, disse que chegou às 5h30 e que pegou a senha de número 27. E, às 9h45, ele ainda não tinha sido atendido. O motorista Luiz Combin conta que desde 25 de fevereiro está marcada uma endoscopia e que até ontem ainda não tinha conseguido realizar o exame.