Foto: Aliocha Maurício

 Ler requer tempo, e esse é o fator usualmente invocado como desculpa por quem não quer ler.

Gabriel Zaid, poeta e crítico literário mexicano, em So many books, livro traduzido recentemente para o inglês, aponta quatro aspectos consecutivos na relação do leitor com o livro na sociedade de consumo: 1. a pressão que o autor ou o título exercem sobre o leitor; 2. a venda do livro enquanto produto industrial; 3. a leitura desse livro (de vez que não é fatal a relação entre comprar e ler); 4. a assimilação e difusão do conteúdo lido.

Fica sugerido nesses itens um percurso de leitura que inicia na informação sobre o título e o autor, para concluir com o leitor enquanto destinatário das idéias e interessado na possível divulgação delas. Esse itinerário, aparentemente simples e previsível, esconde questões e obstáculos múltiplos que interferem, em todo momento, no processo comunicativo e estético e no desempenho eficaz dos agentes de leitura.

Pensemos no primeiro item. Ao tentar elaborar qualquer lista mínima de livros para os mais diferentes propósitos (um concurso, a compra de acervo para a biblioteca, um elenco de obras para estudo numa roda de leitura, a bibliografia para um trabalho científico, a organização de um programa de disciplina), a seleção de nomes e títulos requer pesquisa, repertório, aconselhamentos, discussões, cerrada argumentação, decisões difíceis. Às perguntas ?que livro você indica??, ?que livros você levaria?, ?quais os títulos mais importantes? seguem-se respostas que, na maior parte das vezes, pecam por omissões, por mais excessivas que sejam. Certamente gosto pessoal, critérios pragmáticos, informação desatualizada sustentam essas listas. A seleção terá um ponto de partida necessário e responsável direto por parte do êxito de um programa de formação de leitores. Por essa razão, a ansiedade de educadores por sugestões e indicações. Escolher entre 23 histórias de um viajante, de Marina Colasanti ou Por dentro de um tiranossauro pressupõe objetivos diferenciados. Assim como selecionar o livro de Colasanti ou os contos de Perrault também sinaliza um caminho diverso dentro dos contos de encantamento. Uma seleção adequada é estratégia indispensável ao bom resultado do trabalho com leitores.

Em segundo lugar vem a aquisição dos livros selecionados. Na atualidade, apropriar-se de um texto pode não passar pelas livrarias. A internet permite a compra a distância ou o download integral do texto, criando com isso novas relações de consumo e apropriação. Mas é sobretudo no acervo das bibliotecas que é possível, hoje muito mais do que no passado, ter em mãos os livros desejados.

O terceiro passo é o nó górdio da ação educadora. Ler requer tempo, e esse é o fator usualmente invocado como desculpa para não ler. É o investimento mais custoso, sem dúvida. No entanto, quanto tempo do dia desperdiçamos em ações de espera, de traslado, de passividade ante a TV que poderíamos transformar em tempo de leitura! Na escola, convencer a ler não significa exigir ler. Em texto recente, publicado em Ler&Cia, intitulado ?Mas?, Domingos Pellegrini pergunta: ?Mas o professor pode passar a ser o tutor de discussões (…) nas escolas, não? Em vez de ficar mandando ler livros, deveria estimular a coordenar discussões sobre, por exemplo, por que ler livros, quais livros ler e como lê-los?. Essa contraface do trabalho docente, a de mediador, configura uma outra pedagogia, como já discuti nesta página em crônicas anteriores. A passagem do autoritarismo e da imposição do ?mandar ler? para o compartilhamento das decisões e para o esclarecimento das razões e da importância da leitura desloca a ênfase do trabalho docente da perspectiva do ensino para a da aprendizagem.

O quarto passo proposto por Zaid é, no meu modesto entender, o principal, o mais relevante, a essência da atividade leitora: assimilação e difusão. Quanto ao primeiro, mais do que, como definem os dicionários, ?identidade ou semelhança de fenômenos naturais?, prefiro o entendimento de ?consumo de substâncias alimentares para produção de componentes do organismo?. Assimilar não para permanecer no que já se sabia, mas para produzir energia capaz de dar vida ao cérebro, às inteligências, à sensibilidade. Uma adoção indiscriminada do conteúdo contraria o pensamento atual sobre leitura, que é antes o resultado de um embate, da disputa que o leitor crítico trava com os textos que lê. Dessa troca de porquês e de respostas é que nasce a energia que sustentará argumentos e critérios. Assimilamos não apenas aquilo que nos repete, mas também o revelador, o epifânico. E porque ficamos convencidos, somos capazes de difundir, de indicar, de estimular o outro a ler.

Ao apresentar essas quatro etapas, Zaid não pensou diretamente no professor e em sua atividade formadora. No entanto, indiretamente, fornece os fundamentos para a noção de que, antes de atuar pedagogicamente, o professor deve ser um leitor. Transferir a leitura pessoal para uma prática docente de formação de leitores é um deslizamento suave e prazeroso. Se não existirem esses momentos anteriores de leitura, a tarefa do professor se torna um fardo, acumula dificuldades, assusta e desestimula. Com docentes que não lêem, a formação de novos leitores fica na dependência de receitas, fórmulas, preceitos, criados por outros, e dos quais o professor se faz intermediário, sem compromisso nem crença. Um executor, jamais um criador. Suas aulas serão o recitativo de um texto de autoria alheia.

Assim, aprofundaríamos ainda mais as reflexões acerca desse termo, através do novo enfoque dado ao ensino-aprendizagem da matemática.

A partir de um único termo é possível desencadear um amplo trabalho de educação matemática, favorecendo a compreensão e o significado dos textos e contextos presentes na nossa sociedade.

A partir dessas considerações, percebe-se o quanto é importante e indispensável educar matematicamente, na sociedade atual, através da leitura, análise e reflexão sobre o conhecimento matemático presente no cotidiano das pessoas, desenvolvendo-as para o verdadeiro exercício da cidadania.