São Paulo (AE) – Alvo maior da Operação Hércules – missão integrada da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria da República -, o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) caiu no grampo durante três meses, de junho a agosto, e foi flagrado articulando um ministério para o deputado Delfim Netto (PMDB-SP) negociando com o ex-deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) – ainda presidente da Câmara -, e declarando solidariedade ao líder do PP na Casa, José Janene (PR), que o esquema do "mensalão" contemplou com R$ 4,1 milhões.

Agora prisioneiro federal, sob acusação de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha, o ex-prefeito não poupa críticas a o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e ao deputado Celso Russomanno (PP-SP), a quem se refere com palavrões na ligação que fez para Severino, dia 5 de julho, às 10h28m42s.

Maluf gastou 4 minutos e 39 segundos tentando convencer o ex-deputado que protagonizou o "mensalinho" da Câmara a bancar Delfim para o ministério do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidência do partido. "O Delfim já me autorizou, lavra a ata, põe ele aqui presidente, só não dá pra imprensa", orienta Maluf, que, no entanto, encontra resistência de Severino. "Vai ser um problema eu conseguir do partido apoio para o Delfim; eu vou ter de enfrentar feito uma fera."

Diante da insistência de Maluf, Severino desconversou: "Deixa eu fazer a coisa, que eu tô fazendo a coisa bem-feita. Pode ficar tranqüilo que sai tudinho." O ex-prefeito voltou à carga: "O partido com ele (Delfim) você sabe, sobe de imagem. Não adianta você indicar qualquer um. Veja o PMDB, se arrebentou com Romero Jucá e com o José Borba (PR), não é isso ?"

Os bastidores de Maluf foram captados pelos arapongas da PF, com autorização judicial. A operação secreta batizou Maluf de "Tamandaré". A PF seguia o rastro de Flávio Maluf, filho mais velho do ex-prefeito. Para facilitar a identificação dos alvos do grampo, a PF alcunhou Flávio de "Curumim".

Os Maluf são apontados como beneficiários da conta Chanani, US$ 161 milhões remetidos ilegalmente para Nova York. Os dois estão presos na Custódia da PF há duas semanas. À Justiça, negaram os crimes que lhes são atribuídos pela procuradoria federal.

Maluf recebeu telefonema do presidente nacional do PP, deputado Pedro Corrêa (PE), esforçou-se por Delfim e desdenhou do PMDB, que apostou em Jucá para a Previdência e sofreu pesado desgaste com o escândalo envolvendo o senador por Roraima. Maluf endereçou palavrões para Russomanno, presidente municipal do PP, a quem chamou de "filho da p. e canalha".

Delfim Netto não se manifestou sobre as conversas de Maluf que a PF gravou. Corrêa anotou que "o teor (da ligação) é, essencialmente, político, denotando preocupação em ampliar a força do PP".