Rodeado pelos ministros, na primeira reunião do ano, o presidente Lula não perdeu a oportunidade para comparar o encontro de trabalho com a Santa Ceia, a tradicional pintura na qual estão retratados Jesus e os doze apóstolos participando da mesa pascal. Sua excelência poupou a sociedade, o corpo de ministros e a si próprio do mau gosto de sugerir a presença, em meio a tantas personalidades ilustres, de alguém com o perfil psicológico comparável ao do pernicioso Judas Iscariotes.

Não se apurou igualmente se no íntimo o presidente, ao verbalizar a comparação, pretendia transparecer a vaidade de colocar-se no centro das atenções com um ser supremo, digno de respeito e admiração irrestritos da parte dos auxiliares mais próximos.

Sobre esse aspecto, aliás, a fala presidencial destacou a falta de proximidade entre os ministros que, segundo sua percepção não conversam sobre política e, ao que tudo indica, sobre nenhum outro assunto. ?Penso que entre vocês existe pouca conversa política?, doutrinou Lula, insinuando que alguns ministros levam ?meses e meses? sem trocar uma reles idéia relacionada com a administração.

Lula deverá estar estribado em argumentos irrespondíveis para cobrar publicamente dos ministros a prática saudável do diálogo, chamando a atenção por vias oblíquas para o fato assaz lamentável de muitos deles sequer manifestarem interesse em conhecer projetos realizados em outras áreas do governo a que pertencem.

É provável que a razão principal da mudez dos integrantes do primeiro escalão, algo que o presidente tem o dever de conhecer bem mais que qualquer outro cidadão, acrescido da autoridade que lhe é garantida pela Constituição para exigir mudanças radicais, é o baixo perfil de realizações objetivas oferecido pela maioria dos ministros.

Ao invés de propor aos auxiliares diretos que conversem mais entre si, o presidente Lula deveria ter aproveitado o ensejo para exigir resultados palpáveis nos vários setores da gestão ministerial. Na trilha aberta pela reclamação de Lula, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, disse que os ministros serão também estimulados a se relacionar melhor com os parlamentares a fim de ?evitar novas derrotas como a CPMF?.

A ferramenta principal da nova disposição do governo, segundo Múcio, será a troca de informações, sendo que os ministros de perfil político passam a ter papel preponderante nesse esforço. O avanço das ponderações do ministro é que a busca do diálogo envolverá também a oposição, porquanto o governo considera ?pedagógica? a rejeição da CPMF pelo Senado. Antes tarde do que nunca.