Não sejamos pessimistas. Sabemos que para o Brasil sair do buraco não basta uma escada. Mas um guindaste já ajudaria muito. E, afinal, estamos num movimento ascendente, a economia apresentando algum crescimento. O Produto Interno Bruto cresceu 4,2% no primeiro semestre do ano, ficando não muito longe da meta de 5% apregoada pelo governo. A taxa de 4,2% é a maior desde o primeiro semestre do ano 2000.

O momento revela o bom momento da economia brasileira. Batemos recordes nas exportações, há uma leve retomada do consumo, da renda e do mercado de trabalho. Esses avanços, à exceção das exportações, são pequenos, quase imperceptíveis. Mas pior era quando descíamos a ladeira, aprofundávamo-nos no buraco, enquanto o presidente, por ingenuidade ou demagogia, falava em espetáculo do crescimento.

Em relação ao segundo trimestre do ano passado, o crescimento do PIB é ainda maior. De 5,7%, o maior desde o terceiro trimestre de 1996. Aí vale a advertência de que sempre levemos em conta o que está sendo comparado com o que, e em que épocas. No terceiro trimestre de 1996 tivemos uma fraca recuperação, por conta dos juros altos e da queda da renda do trabalhador. É aquela mágica do binóculo que, se a gente olha do lado correto, aumenta as coisas e, se do lado contrário, faz com que um jacaré pareça uma lagartixa.

Não nos contentemos com esse crescimento econômico, embora devamos olhá-lo com algum otimismo.

O Brasil vai mal não é de hoje. Foi mal neste e nos governos passados, pois depois de cinco séculos e já como um dos maiores países do mundo em território e população, mal consegue mostrar-se como em crescimento. Está mais para subdesenvolvido.

A recuperação econômica ora verificada pode trazer dificuldades para o País. Uma delas, e a mais temida, é a inflação. O IGP-M de agosto ficou em 1,22%, revelando aumento dos preços. Existem também e principalmente gargalos estruturais, aqueles que reclamam o guindaste e não somente uma escada.

É precária a nossa infra-estrutura de saneamento, transportes, energia; há uma alta carga tributária e necessidade de aumento do parque industrial. Este recebeu, ao longo dos anos e bem antes de Lula, poucos investimentos. Com Lula, praticamente nenhum.

Embora o crescimento do PIB no primeiro semestre tenha sido bom, é difícil manter os mesmos níveis nos próximos trimestres. Uma desaceleração seria necessária nos próximos meses para não gerar maiores pressões inflacionárias.

No Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central já se cogita aumento dos juros. E empacou no Congresso o projeto das parcerias público-privadas (PPPs), que gerariam alianças entre o governo e os investidores particulares para obras de infra-estrutura.

Há empresários aplaudindo as PPPs, mas a maioria é de gente que vê na aliança uma oportunidade de ganhar dinheiro. Gente que pensa mais em si do que no progresso do País. No mais, será sempre um ponto de interrogação para um empresário ou a iniciativa privada em geral atirar-se num projeto de associação com um governo que ainda questiona as privatizações, fala em estatização e passou mais de duas décadas pregando a socialização dos meios de produção…

À iniciativa privada assusta a idéia de pôr dinheiro em projetos de resultados a longuíssimo prazo, em sociedade com um governo que é regulador e pode até decidir que é ele que vai mandar nos novos empreendimentos.

Estamos subindo devagar e temos de cuidar para não levar um escorregão.