Existe muito a ser feito para melhorar o acesso à tecnologia pelos brasileiros. Segundo pesquisa divulgada hoje (24) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 55% da população nunca teve contato com um computador e 68% nunca acessou a rede mundial. Isso se deve tanto à má distribuição de renda quanto às dificuldades de colocar em prática as políticas públicas.

"A instalação de telecentros não andou tanto quanto queríamos", reconheceu Rogério Santanna, secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento e integrante do conselho do Comitê Gestor. A pesquisa apontou que 35% da população não têm dinheiro para comprar um computador, mesmo com programas como o PC para Todos, que reduziu o imposto das máquinas e começa a oferecer financiamento subsidiado.

"Ter computador em casa é um dos fatores importantes, mas não é uma condição necessária para ter acesso", afirmou Clifford Young, diretor da Ipsos Opinion, que fez a pesquisa. "Principalmente para os mais jovens, que não usam necessariamente o computador em casa." Segundo o estudo, 24% da população brasileira usou a internet nos últimos três meses. Isto equivale a 44,4 milhões de pessoas, o dobro do que foi apontado pelo Relatório da Economia da Informação 2005, divulgado pela Organização das Nações Unidas na semana passada. De acordo com Santanna, possivelmente porque o documento da ONU usou dados de 2003 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A ineficiência da política de telecentros até agora apareceu na pesquisa. Menos de 1% das pessoas usam a internet em centros públicos gratuitos. "As direções estratégicas estão corretas", afirmou Santanna. "Mas fora de cidades como São Paulo e Porto Alegre, o número de telecentros ainda não é suficiente." O projeto de telecentros do governo federal, chamado Casas Brasil, não consegue sair do papel, por causa de contingenciamento de recursos e disputas internas.

Hoje, a casa é o principal local de acesso à rede mundial, conforme apontaram 10% dos entrevistados. Em segundo lugar, vem o trabalho (6%), seguido da escola (5%), da casa de outras pessoas e de centros públicos de acesso pago (ambos com 4%). As pessoas apontam a falta de computador (46%) e o custo alto do equipamento (26%) como os principais motivos para não ter internet em casa.

Os obstáculos para o acesso ao computador não dependem somente da renda, segundo a pesquisa. "Quem mora na favela de Paraisópolis tem três vezes menos chance de ter um computador que alguém com a mesma renda que more em Moema", afirmou Young. "Uma pessoa branca tem quatro vezes mais chance de ter um computador que uma amarela e uma negra duas vezes menos que uma amarela."

O celular, que já soma 81 milhões de usuários no País, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), já começa a se tornar um meio importante de acesso à internet, dados que outras pesquisas ainda não apontavam. Segundo o estudo divulgado hoje, 61,2% das pessoas têm telefone móvel e 25,9%, celulares com capacidade de conexão com a internet. Entre os que se conectam à rede a partir de casa, 21% usam o telefone móvel.

"Ainda é grande a legião de excluídos", afirmou Rodrigo Baggio, diretor-executivo do Comitê para a Democratização da Informática (CDI), organização não-governamental que conta com uma rede de 965 escolas de informática e cidadania em 19 Estados do Brasil e mais 8 países. Para ele, existem três pontos importantes para reverter esta situação: a multiplicação de pontos públicos de acesso; a capacitação massiva em informática, para um uso crítico e empreendedor; e ampliar a infra-estrutura de acesso. "Pouco mais de 1 mil dos 5,5 mil municípios brasileiros têm provedor local."