É preciso que alguém pesquise as pesquisas eleitorais. Em toda a redação de O Estado não encontramos ninguém que já foi consultado e respondeu a uma dessas pesquisas. E, pasmem! Ninguém que conheça alguém que respondeu a alguma dessas pesquisas. Com certeza, elas acontecem. Longe de nós a idéia de que os institutos que as realizam, não importa quem as patrocine, sejam entidades inidôneas a ponto de forjarem pesquisas. O que parece evidente é que elas abrangem um número muito pequeno de consultados, distribuídos no território nacional de forma a não expressarem a opinião das populações de suas diferentes regiões. Outro senão é o grau de convicção de quem responde às pesquisas, o motivo imediato de uma escolha e o grau de engajamento com os candidatos apontados.

O presidente do Instituto Vox Populi, cientista político Marcos Coimbra, diz que menos de 30% da chamada intenção de voto pronunciada nas atuais pesquisas eleitorais deve ser levada a sério.

“Damos o nome genérico de intenção de voto, mas só 30% têm mesmo convicção da escolha e não mostram disposição de mudar”, afirmou Coimbra. E acrescentou: “Entre os outros 70%, existem os que estão gostando ou simpatizando com alguém e aqueles que apenas lembram de um nome. Trata-se de intenções vagas, lembranças sem qualquer compromisso, que podem mudar de uma hora para outra”.

As pesquisas eleitorais mudam ao sabor das aparições dos candidatos na televisão e do sucesso de seus programas, montados pelos respectivos marqueteiros. Pouco influem as idéias pregadas pelos pré-candidatos, já que todos dizem praticamente a mesma coisa, embora com oratória diferente.

Não falta a demagogia de prometer o que não se sabe como cumprir, nem as frases de efeito em que uns postulantes à Presidência da República são mais competentes “chutadores” que outros. O denuncismo já funcionou para alterar os resultados das pesquisas. Denunciava-se alguém que, mesmo remotamente, um dia freqüentou o círculo de amizades e colaboradores de um candidato. Mesmo sem prova e, algumas vezes, com enunciado sem pé nem cabeça, essas denúncias tinham o condão de alterar os resultados das pesquisas. Caíam uns e subiam outros e na denúncia seguinte, mais pontos para cá e menos pontos para lá.

Hoje o denuncismo tende a não mais influir nas pesquisas, salvo se aparecer alguma denúncia diretamente dirigida a um pré-candidato, devidamente fundamentada, convincente e que possa ser entendida claramente pelos eleitores. Não mais influi porque já foram suas vítimas todos os candidatos, seus correligionários, coletores de financiamentos para campanhas e até ex-sócios, parentes por afinidade, vizinhos e relações ainda mais distantes. Ninguém mais acredita nas denúncias ou passa-se a acreditar que nenhum candidato está acima de qualquer suspeita. Fica-se na expectativa de, ao final da refrega eleitoral, poder escolher o menos implicado.

Esse quadro vai mudar até o pleito, especialmente quando forem definidas as coligações, aparecerem os candidatos a vice e começarem os debates entre os candidatos.

Explicam-se as cautelas de Lula, até aqui privilegiado com o primeiro lugar em todas as pesquisas de intenções de voto e que ainda guarda uma distância considerável do segundo colocado. Sabe ele e sua equipe que as eleições não estão ganhas e que muita água ainda vai rolar debaixo da ponte. Tomara que não seja água suja.