Brasília (AE) – O PTB e o PL entraram em fogo cruzado. Depois de o PTB, partido do deputado Roberto Jefferson (RJ), ter apresentado pedido de cassação contra o líder do PL, Sandro Mabel (GO), e contra o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto (SP), que renunciou ao mandato na segunda-feira (01), o PL entrou hoje com representação contra seis deputados do PTB por falta de decoro parlamentar.

Com tantos pedidos, o presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara, Ricardo Izar (PTB-SP), alertou a falta de estrutura do órgão para tantas investigações simultâneas e, em conseqüência, o presidente da Casa, Severino Cavalcanti (PP-PE), resolveu segurar na Mesa os pedidos para encaminhá-los a conta-gotas ao conselho.

"Nossa capacidade é para dar prosseguimento a dois processos ao mesmo tempo", avaliou Izar. "O que eu quero é garantir que aqueles que, comprovadamente, tenham ferido o decoro parlamentar sejam punidos", disse Severino. Para tomar a decisão de segurar os pedidos, Severino adotou uma avaliação técnica sobre as regras para o processo de cassação. Como o conselho tem o prazo de 90 dias para dar o parecer final, o grande número de processos poderia impedir a análise dos pedidos e a votação seguiria diretamente ao plenário da Casa, de acordo com a avaliação técnica.

A corrida pela cassação de adversários atingiu hoje quatro deputados do PTB que foram candidatos nas eleições municipais de 2004: Sandro Mattos, candidato em São José do Meriti (RJ), Neuton Lima, candidato à prefeitura de Indaiatuba (SP), Joaquim Francisco, candidato em Recife, e Alex Canziani, que disputou a Prefeitura de Londrina (PR).

Para pedir a cassação, o PL argumentou que todos os candidatos do PTB nas eleições de 2004 estão sob suspeita de terem usado dinheiro de caixa dois, uma vez que Jefferson declarou que recebeu R$ 4 milhões do PT, obtidos por meio do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, para usar em campanhas eleitorais de seu partido.

O PL pediu a cassação também do deputado Romeu Queiroz (PTB-MG) porque seu nome está na lista dos beneficiados com saques da conta de empresas de Valério. De acordo com a lista entregue pela diretora-financeira da agência de publicidade SMP&B, Simone Vasconcellos, Queiroz teria recebido R$ 350 mil. O PL pediu ainda a cassação do mandato do deputado Francisco Gonçalves (PTB-MG) com o argumento de que o deputado declarou que viu uma pasta com dinheiro no plenário da Câmara, levantando suspeitas contra todos os deputados, mas não provou.

"Isso é piada", reagiu Izar (PTB-SP). "Não se pode banalizar o conselho, que tem uma imagem muito boa. Tem de ter cuidado", continuou Izar. A reação do deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), integrante do conselho foi semelhante. "É preciso ter cuidado para não banalizar a representação. Daqui a pouco, a representação vai virar instrumento de chantagem. Tem de ser para valer. Se o critério é fazer chumbo cruzado, tem de saber dar o tiro", afirmou o tucano.

O líder do PTB na Câmara, José Múcio Monteiro (PE), e o secretário-geral do partido, deputado Luiz Antonio Fleury Filho (SP), classificaram a atitude do PL de "retaliação". Para os dois, os culpados têm interesse em tumultuar o processo. "É interesse dos verdadeiros culpados impedirem a apuração", disse Fleury Filho. Os seis deputados alvos de Costa Neto também consideraram que o pedido de cassação teve como objetivo retaliar o partido de Jefferson. "Isso é uma briga do Valdemar com o PTB", resumiu Joaquim Francisco.