O senador paranaense Alvaro Dias (PSDB) recebe amanhã, em Brasília, o prêmio Congresso em Foco, por ter sido eleito, por voto popular, o senador mais atuante do Congresso Nacional. Em entrevista a O Estado do Paraná, Dias falou sobre o prêmio, o ano no Congresso, crise e eleições 2010.

O Estado – Qual a importância para um parlamentar receber o prêmio Congresso em Foco?

Alvaro Dias – Primeiro eu gostaria de destacar a importância desta iniciativa, porque o Poder Legislativo tem sido achincalhado, até com justificadas razões. Alguns escândalos que começaram pela Câmara, no período do “mensalão”, e acabaram chegando ao Senado têm comprometido a imagem do Legislativo. Essa iniciativa do Congresso em Foco, que é um veículo de comunicação especializado em dar cobertura ao trabalho do Congresso, é uma promoção que valoriza a instituição e possibilita às pessoas distinguir os parlamanetares, separar o joio do trigo. Fico muito feliz por, pela segunda vez em três edições, ter conquistado o primeiro lugar. Quero agradecer principalmente ao Paraná pelos votos que me honraram com esse primeiro lugar.

OE – Como o senhor avalia o ano de 2008 para o Senado e para o governo federal?

AD – Para o Senado não foi um bom ano em razão das turbulências ocorridas especialmente no episódio Renan Calheiros. A produção também ficou aquém do esperado em razão das medidas provisórias, que impediram o Congresso de produzir mais. Então, não posso fazer um balanço positivo das atividades do Congresso Nacional. Tivemos um grande momento no final do ano passado, com a rejeição da CPMF; outro bom momento recentemente com a devolução de uma medida provisória, numa afirmação de independência. O Senado tem aprovado projetos importantes, mas eles estão parando na Câmara. Quanto ao desempenho do Executivo, acho que o governo tem demonstrado incapacidade administrativa. Ele continua engordando a máquina pública e reduzindo a sua capacidade de investir. O governo faz tanto alarde – por exemplo, do PAC – e não se vê resultados.

OE – O que deveria ter sido resolvido em 2008 que vai ficar para o próximo ano?

AD – Muita coisa. A reforma política, por exemplo, nem saiu da Câmara ainda. A reforma tributária, da mesma forma, não chegou ao Senado. Quanto às outras questões, como o projeto que define os investimentos em saúde, também estão paradas. O Senado aprovou, foi para a Câmara, a Câmara iniciou uma tentativa de se recriar a CPMF com outro nome e paralisou os procedimentos. Então fica para o próximo ano também.

OE – Que avaliação o senhor faz das ações do governo brasileiro perante a crise econômica mundial?

AD – Acho que o governo, no início, debochou da crise e foi irresponsável. Agora, ele reconhece a gravidade da crise, mas demonstra incompetência para apresentar medidas efetivas de enfrentamento. De outro lado, ele se isola e não convoca as forças vivas do país para contribuírem. Eu tenho sugerido, desde o primeiro momento, que o governo convoque um comitê de crise, que poderia ser constituído de especialistas de todos os setores, suprapartidariamente. Teríamos sugestões mais lúcidas e medidas mais adequadas para enfrentar a crise. Inexplicavelmente, o governo não age desta forma. E o que o governo fala não se concretiza. Ele anuncia a liberação de bilhões de reais para os bancos com o intuito de melhorar o fluxo de recursos para o setor produtivo, com o fortalecimento do crédito, mas isso não acontece. Como oposição, tenho o dever de denunciar que o governo desenvolve, neste momento, uma ação insuficiente para o enfrentamento da crise, sobretudo, diante de uma ameaça de recessão.

OE – No início do ano, o senho,r protagonizou o episódio do vazamento do dossiê com os gastos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Qual sua avaliação do desfecho deste caso?

AD – Foi um crime praticado e isso ficou comprovado na Casa Civil, que envolve a ministra Dilma (Rousseff) e, por isso, o inquérito policial não chegou ao final. O delegado cumpriu seu dever, encaminhou à Procuradoria a solicitação para a investigação da ministra. A Procuradoria reconheceu que existiam elementos suficientes para a investigação. O juiz federal da mesma forma e isso deveria ser repassado ao Supremo Tribunal Federal, para autorizar ou não a investigação, e esses procedimentos não se concluíram. Então houve uma interrupção nesse processo de investigação e nós não chegamos aos procedimentos finais. A responsabilidade da ação devida, portanto, não ocorreu. É um episódio inconcluso.

OE – O episódio não foi concluído e a ministra Dilma já é anunciada como pré-candidata à Presidência. A opinião pública já esqueceu deste caso?

AD – Nesse caso nós não podemos condenar a opinião pública, até porque a ministra Dilma não decolou. Um exemplo é em Pernambuco, estado onde o Lula tem mais força. O José Serra, na última pesquisa, fez 41% e a ministra Dilma 5%. O presidente insiste, mas ela não decola.

OE – Falando em 2010, o senhor, mesmo com mais seis anos de mandato, pretende disputar algum cargo nas próximas eleições?

AD – Eu vou consultar a opinião pública no momento devido. Acho que por volta de maio do ano que vem. Devo fazer uma pesquisa geral no Estado e me orientar em função do desejo da população. Esse é o primeiro ato e, se a consulta recomendar uma eventual candidatura, aí, sim, vem o trabalho de viabilização junto ao partido e aos aliados.

OE – A aliança PSDB, PDT, PPS, DEM e PSB, que reelegeu Beto Richa, será mantida para a próxima eleição?

AD – Eu respeito aqueles que acham que a política do Paraná se articula ou mora só em Curitiba, que a política do Paraná é a política de Curitiba. Mas nós estamos nas eleições estaduais e não nas municipais. Na eleição passada, o projeto mais importante era o da prefeitura, então a aliança se arquitetava em função da eleição do prefeito. Agora para 2010, o projeto mais importante é de presidente da República. É um projeto nacional. É necessário aguardar a arquitetura do projeto nacional, para depois organizar a aliança estadual. Não sabemos quais partidos poderão participar da aliança do PSDB que tem um candidato favorito a presidente da República. O que posso dizer é que há uma orientação nacional para que o partido tenha candidatos próprios ao governo, principalmente em estados importantes como o Paraná. Não sou contra, se o partido entender que deve fazer aliança e apoiar um candidato de outra sigla. Não serei obstáculo, mas não sinto viabilidade nessa alternativa.

OE – A proximidade do PDT nacional com a base de apoio do governo Lula seria um dos obstáculos para que essa aliança seja repetida em 2010?

AD – Não é só o PDT. Existem outros partidos que estão integrando a base do presidente Lula. Vamos ver qual será o comportamento desses partidos na próxima eleição. Por exemplo, o PMDB integra a base do governo Lula, mas já ofereceu um vice ao candidato do PSDB a presidente da República. O PSDB também cultiva o PMDB e haverá uma tentativa de trazer também o PMDB para a aliança do PSDB nacional.

OE – O senador Osmar Dias (PDT) anunciou que já é candidato ao governo do estado em 2010. O senhor enfrentaria seu irmão?

AD – Não sei se ele disputaria comigo. Eu também pergunto. Eu não desejo isso. Não é uma disputa que eu estimulo. Eu só disputarei a eleição se realmente a população determinar que eu dispute. E isso significa estar em posição privilegiada nas pesquisas, senão o caminho, estará aberto a quem quiser. Eu não serei obstáculo nenhum.

OE – Nas últimas semanas comentou-se sobre um possível convite para que o senhor dispute o governo do estado pelo PTB. Há a possibilidade de o senhor trocar de partido?

AD – Não. É claro que os convites vêm sempre, de diversos partidos. Mas não cogito sair do PSDB. Acho que (o PSDB) é uma alternativa de mudança importante para o País, tem os melhores quadros da política brasileira, tem candidato favorito. Não estou cogitando em hipótese alguma deixar o PSDB e não tenho motivo pra isso.

OE – O senhor citou o governador de São Paulo, José Serra, como o candidato tucano à Presidência da República. Esse nome já está definido?

AD – Não sou eu quem estou definindo é a população. O Serra não faz menos que 38% em nenhuma das pesquisas. O partido deve respeitar a população – quem escolhe o candidato é a população, o partido homologa – essa é minha tese e é sincera. Eu vejo a candidatura do Serra como um fato consumado e irreversível.