Relatos de arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) mostram que autoridades com prerrogativa de foro, entre “políticos e ministros do Poder Judiciário”, caíram mesmo na malha de grampos telefônicos da Operação Satiagraha – investigação que chegou a prender, por duas vezes, o banqueiro Daniel Dantas, do Grupo Opportunity. O monitoramento teria ocorrido durante a primeira etapa da Satiagraha, sob comando do delegado Protógenes Queiroz.

Detalhes da interceptação foram revelados por Sonia Maria Pagioro Cavalcante de Almeida e Eloir Vetterlein, agentes da Abin, em depoimento ao general de divisão João Roberto de Oliveira, que presidiu a comissão de sindicância instalada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República para investigar supostas irregularidades na parceria entre Abin e Polícia Federal (PF). Os depoimentos confirmam suspeitas sobre espionagem ilegal na Satiagraha. As duas integraram o pelotão de 84 arapongas da Abin recrutados por Protógenes para o cerco a Dantas.

Quando a sindicância foi concluída, em dezembro, o general Jorge Armando Felix, ministro chefe do GSI, encaminhou cópias dos depoimentos de Sonia e Eloir à Procuradoria Geral da República “para conhecimento e providências que entender cabíveis”. O ministro destacou o conteúdo das declarações que vão das páginas 465 a 469 (Sonia) e da 796 a 798 (Eloir). Em 2 de junho, o então procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza determinou o arquivamento dos autos relativos aos depoimentos.

Sonia declarou “que ouviu em uma ocasião uma conversa citando o senador Demóstenes Torres; que ouviu diálogos do senador Heráclito Fortes e supostamente de ministros do Poder Judiciário; que o assunto era acerca de operações financeiras; que ouviu diálogos de pessoa, provavelmente um lobista, que se articulava intensamente com ministros do Poder Judiciário e políticos, essa pessoa se chamava Guilherme”.

Heráclito Fortes

Eloir Vetteerlein contou que se lembra de diálogo entre Humberto Braz (lobista de Dantas condenado por corrupção ativa) e o senador Heráclito Fortes. “Nas transcrições de conversas de Braz com o senador Heráclito, o parlamentar cobrava remuneração pecuniária pela aprovação de projetos de interesse do grupo; que se recorda de uma ligação em que pelo menos três vezes o senador fazia a cobrança; o senador dizia mais ou menos o seguinte: ‘Eu quero o meu, trabalhei para isso’; que Humberto dizia que iria falar com o ‘homem’; que havia presunção de que tratar-se-ia do sr. Daniel Dantas.”

“Nunca tive um diálogo telefônico com esse Humberto Braz”, rebateu Heráclito. “Nunca vi canalhice tão grande. É uma irresponsabilidade. Os arapongas querem aliviar a posição dos colegas que gravaram o senador Demóstenes Torres e o ministro Gilmar Mendes. Vi uma única vez esse Braz e não simpatizei. Se acharem de fato conversa minha com ele eu renuncio.”