Orlando Kissner
Microfone clandestino
foi encontrado
no comitê tucano.

A Coligação Curitiba Melhor Pra Você denunciou ontem a existência de “grampo” no comitê da coordenação da campanha do candidato a prefeito Beto Richa. O equipamento de escuta ambiente, considerado sofisticado e caro, foi localizado no forro da casa onde funciona o comitê, depois de uma varredura feita por uma empresa particular contratada pela coligação.

Ao mesmo tempo, o departamento jurídico da coligação entrou com representação junto à Promotoria de Investigação Criminal (PIC) para denunciar ação da Polícia Militar, que invadiu o comitê na madrugada de quinta-feira. Armados, oito homens – sendo quatro deles fardados, dois à paisana e outros dois se dizendo técnicos – pularam o muro e renderam os seguranças que trabalhavam no local para, supostamente, detectar aparelho instalado na casa que estaria funcionando na mesma freqüência e interferindo nos equipamentos de rádio da PM.

“Grampo”

O aparelho de escuta descoberto no comitê de Richa está direcionado para a sala da coordenação geral da campanha e também do candidato. O fato foi denunciado, na última quarta-feira, à Polícia Federal. Antes de qualquer providência, a PF levou o caso ao Tribunal Regional Eleitoral. Por se tratar de crime federal, o TRE solicitou que as providências fossem tomadas pela PF, que ontem à tarde mandou cinco técnicos para efetuar a perícia no local. O caso também foi denunciado à 1.ª Zona Eleitoral. Para o coordenador da campanha de Richa, Fernando Ghignone, “trata-se de invasão de privacidade e crime eleitoral. A polícia tem que nos dar segurança”, diz.

A varredura no comitê foi feita depois que a coligação passou a suspeitar de vazamento de informações da campanha de Beto Richa, como do Plano de Governo, do departamento jurídico e até de estratégias de campanha. “Houve casos de termos representações contestadas no TRE quase ao mesmo tempo em que encaminhávamos os pedidos à Justiça”, informou Ghignone.

O equipamento de escuta está instalado na rede elétrica, sobre uma luminária. Com microfone, tem a capacidade de captar som num raio de 200 metros. Segundo o técnico responsável pela varredura, o receptor recebia o som num raio de 100 metros, o que significa que o responsável pelo grampo se instalou num imóvel próximo do comitê ou em um carro que pode ter sido estacionado na região. De fácil instalação, o aparelho estava camuflado embaixo de uma viga e coberto por uma toalha.

A suspeita é que o “grampo” está instalado no comitê há três semanas. Pela gravidade do fato e a existência de provas, o coordenador da campanha acredita que a polícia não está dando a importância necessária à denúncia. “É um crime eleitoral que tumultua o processo democrático. O que vemos nos remete ao tempo da ditadura militar”, ressalta.

Segundo Ghignone, a campanha de Beto Richa vem sofrendo uma série de ataques: “Nossos muros para propaganda são repintados, nossos outdoors pichados, e estamos sendo alvo de falsas denúncias na TV e na internet, através de e-mails apócrifos com conteúdo ofensivo que tentam denegrir a imagem do candidato. Além disso, companheiros e seus familiares estão recebendo telefonemas com ameaças. Isso só pode estar partindo de algum adversário preocupado em desestabilizar as eleições”, arrisca, alertando a população para que fique atenta “e compare quem leva a campanha a sério e quem apenas agride”.

PM explica operação

A autorização para entrada da Polícia Militar e vistoria no comitê do candidato à prefeitura de Curitiba, Beto Richa (PSDB), na madrugada de ontem, foi assinada pelo responsável pela segurança do local, Sílvio Farias de Salles. De acordo com o tenente-coronel Mauro Pirollo, comandante do 12.º Batalhão da Polícia Militar, a entrada dos policiais foi dentro da legalidade e motivada porque a “escuta” que se encontrava no comitê causava interferência no sistema de comunicação da PM. “Geralmente, quadrilhas de criminosos tentam captar o sinal de rádio da polícia para obter informações sobre as operações na cidade. A polícia imediatamente faz uma varredura para descobrir de onde vem o sinal e foi através dos técnicos que nós chegamos ao endereço daquela casa”, explicou.

Pirollo frisou ainda que toda a investigação só foi deflagrada, porque a escuta prejudicou completamente a comunicação dos batalhões com as viaturas que estavam nas ruas. “Era impossível avisar sobre qualquer ocorrência, pedir apoio. Nós não fazíamos a mínima idéia que a escuta estaria localizada em um comitê político, só precisávamos sanar o nosso problema para que a segurança não ficasse prejudicada”, disse o coronel.

Mesmo com a autorização assinada pelo segurança do comitê, a Polícia Militar do Paraná instaurou procedimento administrativo para apurar se os policiais cometeram algum tipo de irregularidade durante o procedimento de vistoria no local.

Vistoria

Com a autorização do segurança, os policiais militares e técnicos da empresa que presta serviços de manutenção para o sistema de rádio entraram para revistar a casa. Um detector de sinais foi utilizado para conseguir encontrar o local exato onde estava o aparelho. De acordo com o relatório da PM, o segurança também autorizou que fosse retirada a luminária de teto, onde foi encontrado um pequeno microfone.

No relatório, a PM ainda salienta que por volta das 2h30, de quinta-feira, o coronel da reserva José Cavalim de Lima, chefe da segurança da campanha do tucano e Fernando Ghignone, coordenador da campanha de Beto Richa, estiveram no local. Questionado pelos policiais, o coordenador explicou que já sabia da existência da escuta e que já havia feito denúncia formal à Polícia Federal. “Assim, a ocorrência foi finalizada com o registro do boletim de ocorrência”, explicou Pirollo. Ele informou ainda que a interferência no rádio da PM foi percebida 24 horas antes.

A partir daí, segundo a PM, foram acionados o setor de reparos da corporação e também a empresa que presta serviços de manutenção para o sistema de comunicação da Polícia Militar.

PT cobra punição a site

A coordenação da campanha do deputado estadual Angelo Vanhoni (PT) pediu ontem à Polícia Federal que identifique e puna os responsáveis por um site apócrifo que exibe conteúdo ofensivo ao candidato do PT à Prefeitura de Curitiba, ao governador Roberto Requião (PMDB) e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além do site, estão sendo distribuídos e-mails com as mesmas afirmações depreciativas sobre o candidato, o governador e o presidente.

Conforme a coordenação jurídica da campanha, a difusão deste tipo de material configura um crime eleitoral que deve ser investigado pela Polícia Federal. “Como se trata de um crime eleitoral, é da competência da Polícia Federal fazer o rastreamento deste material e procurar a origem dos e-mails e do site apócrifo”, informou a assessoria do candidato petista. A coordenação da campanha informou que também vai tomar todas as providências cabíveis para encontrar os autores do site e dos e-mails.

E-mail apócrifo com contéudo agressivo não é novidade na campanha eleitoral deste ano, em Curitiba. Outros dois candidatos – Rubens Bueno (PPS) e Beto Richa (PSDB) – também foram alvos das intrigas virtuais. E-mails fazendo denúncias contra Bueno e comentando a vida pessoal e profissional de Beto Richa começaram a ser difundidos há cerca de um mês.

O candidato do PPS foi o primeiro a se sentir difamado por e-mails, indo à Polícia Federal, onde pediu a abertura de inquérito para apurar as responsabilidades. Até agora, o candidato do PPS não foi informado sobre o avanço das investigações. Beto Richa também entrou com representação na Justiça Eleitoral para que fosse identificada a origem do material.

O texto contra Bueno e Beto Richa era assinado por “Amigos do Bertoldi”. A assessoria da coordenação da campanha do candidato do PFL, Osmar Bertoldi, informou que solicitou um rastreamento para identificar a origem do texto distribuído contra os concorrentes.

O e-mail contra Vanhoni leva a assinatura de “Juventude Tucana”. A assessoria jurídica de Beto Richa remeteu ontem à Polícia Federal uma denúncia para que seja investigada também a origem dos e-mails contra Vanhoni. O coordenador da campanha tucana, Fernando Ghignone, disse que este tipo de ataque merece o repúdio do PSDB e que é necessário preservar o bom nível da campanha. “O Vanhoni é nosso adversário, mas recebe o nosso respeito. Este tipo de coisa que aconteceu ontem se junta a tudo que nos aconteceu também. E merece ser execrado”, afirmou. (Elizabete Castro)