O cientista político Bolívar Lamounier afirmou em entrevista ao Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, que a presidente Dilma Rousseff deveria primeiro escutar a voz das ruas para depois se posicionar sobre a onda das manifestações que estão acontecendo no País. “A rua tem que definir a sua agenda, escolher seus representantes para abrir o diálogo e só depois é que a presidente deve se pronunciar.”

Para ele, é importante que o movimento – que começou com atos contra o aumento das tarifas de transporte público e estendeu suas reivindicações para questões como combate à corrupção e gastos excessivos para eventos esportivos, como a Copa do Mundo – deixe de lado o ‘romantismo’ da manifestação e busque compromissos que possam efetivamente mudar as insatisfações da sociedade. “O romantismo é importante, mas daí não sai uma solução política para os problemas”, disse. “Alguns problemas não terão solução tão cedo. Uma hora os manifestantes têm que entender que é preciso baixar a bola e tentar ser mais objetivo. Ver o que se pode fazer no curto e médio prazo”, ponderou. “Os dois lados (governo e manifestantes) vão ser questionados.”

Segundo Lamounier, a população se mostra insatisfeita com a atual agenda política, principalmente em termos econômicos e sociais. “O que se tem reclamado é da falta de prioridades eficientes para os gastos do governo. Acho que esse é o ponto central e o fio condutor dos protestos.” Para ele, a “ilusão da classe média feliz” acabou. “As pessoas estão sofrendo com a inflação, vendo gastos faraônicos com a Copa do Mundo. Ninguém está satisfeito.”

De acordo com Lamounier, ainda é preciso instaurar o diálogo para definir as soluções. “É preciso revigorar a imagem do governo”, disse, explicando que isso pode acontecer com alguma mudança de ministério. Ele ressaltou ainda que, para essa mesa de negociação, será preciso buscar interlocutores com uma boa imagem perante a população. “O que não será fácil.”

Ele destacou ainda que o movimento dos caras-pintadas que, em 1992, conseguiu o impeachment do então presidente Fernando Collor tem em comum com o de hoje o fato de ser “altamente emocional”. No entanto, ele pondera de que “a solução estava embutida na própria manifestação”. “Não é o caso agora”, reforçou.

Redes sociais

O fenômeno do uso das redes sociais ainda não é compreendido pela classe política brasileira, destacou o cientista político. “A imensa maioria dos políticos não está antenada nisso”, disse, ressaltando que a mobilização que tem acontecido por meio das redes sociais vai modificar o rumo político do País.

De acordo com ele, é justamente a mobilização por meio da internet que tem feito com que o número de protestos por todo o mundo cresça. “No caso das mobilizações internacionais, o único elemento em comum com as manifestações brasileiras é a rede social. O Brasil está com a democracia funcionando”, afirmou, ao destacar que no mundo árabe, por exemplo, a luta é contra regimes ditatoriais.

Herança de sonhadores

Questionado se boa parte dos jovens manifestantes de hoje no Brasil tende a buscar uma alternativa política que possa dar força a uma candidatura fora do eixo PT-PSDB e beneficiar a eventual candidatura da ex-senadora Marina Silva nas eleições presidenciais de 2014, Lamounier afirmou que “é possível que na base do romanticismo, pode ser que ela se beneficie um pouco”. “Mas ainda é um pouco cedo para avaliar”, completou.

Lamounier disse que a ocasião é “uma ótima oportunidade” para o governo engavetar o projeto de lei que tenta barrar a criação de partidos e, com isso, prejudicar uma eventual candidatura de Marina, que tenta fundar a sigla Rede Sustentabilidade. “O Congresso deveria jogar esse projeto no lixo amanhã. É preciso parar com essa arrogância do governo. É um casuísmo sem tamanho”, avaliou Lamounier, que também é fundador do Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo (Idesp).