No último debate na televisão pelo segundo turno da eleição presidencial, os candidatos Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) evitaram o confronto direto diante dos 80 eleitores indecisos selecionados pela TV Globo para participar do encontro.

A emissora optou por um formato através do qual os eleitores formularam todas as questões apresentadas aos candidatos. Com isso, Dilma e Serra evitaram ataques mais duros e mantiveram o tom propositivo e ameno durante todo o evento. Serra provocou sutilmente Dilma, ao falar de corrupção e de inflação. Mas, na maior parte do tempo, listaram propostas para áreas como funcionalismo, agricultura, segurança e saneamento.

Ao responder à pergunta do advogado Lucas Andrade, do Distrito Federal, sobre a sucessão de escândalos envolvendo políticos no país, Serra afirmou que a corrupção no país “chegou a níveis insuportáveis”.

Na réplica sobre o tema, citou o caso dos aloprados, envolvidos na compra de dossiê contra a campanha do tucano Geraldo Alckmin (PSDB), em 2006. O tucano fez também referência a escândalos que atingiram a política “nos últimos vinte anos”.

Serra fez uma referência indireta aos escândalos na Casa Civil, mas, diferentemente de outros embates, sem citar o nome do PT, de Dilma ou da ex-ministra Erenice Guerra: “O exemplo tem de vir de cima. Tem de ser implacável, não passar a mão na cabeça. Quando o chefe passa a mão na cabeça é terrível, do ponto de vista que isso vai acabar se repetindo porque pessoas vão achar que estão protegidas”, disse.

O candidato tucano aproveitou para defender a liberdade de imprensa, ao dizer que é a imprensa que “descobre grande parte das irregularidades e não pode ser inibida, pressionada”.

Dilma, na réplica da pergunta sobre corrupção, teceu elogios à Polícia Federal: “Nos últimos anos, reforçamos e profissionalizamos a Polícia Federal. Começamos a ver uma série de casos de corrupção sendo apurados. E vimos pessoas de gradação mais elevada sendo presas. Mal feito, pode ter certeza de que em qualquer lugar que não houver investigação, vai acontecer. Tem que investigar e punir. E a PF é um dos maiores instrumentos de apuração”, disse ela.

A pergunta sobre agricultura familiar, feita a Dilma pelo funcionário Robinson Luis, de Porto Alegre, trouxe o tema ao debate, mas também foi usada como recurso para uma outra discussão: o risco da volta da inflação ao país.

A questão apareceu na réplica de Serra: “O que precisa a agricultura? Precisa de renda. Para renda, precisa de crédito. Às vezes, ele não tem condição de pegar. Será necessário fazer uma reorganização ampla. Com política de juro alto e moeda valorizada, o agricultor perde competitividade com a Argentina e o Uruguai. E infraestrutura. Ele precisa de estrada e 40% da armazenagem são considerados ruins e falta estrada, isso encarece o preço do milho, etc”, disse. Dilma defendeu a política de agricultura familiar implementada na gestão Lula. E também reagiu a Serra.

No último bloco do debate, Dilma e Serra passaram os primeiros momentos debatendo sobre desmatamento e meio ambiente. “Eu assinei em nome do Brasil a redução da emissão de gas estufa de 36% a 39% até 2020. Isso significa uma meta voluntária”, afirmou Dilma.

Ela prometeu o combate ao desmatamento da Amazônia, do cerrado e a criação de áreas de preservação. “Tem que haver alternativa econômica à população, senão, você favorece o desmatamento”, disse Serra.

Diante de perguntas sobre política social, Serra fez menções ao Bolsa Família, principal programa social do governo Lula. Prometeu ainda complementar a renda dos beneficiários do projeto com uma bolsa de estudos para que jovens cursem o ensino técnico.

Ele prometeu ainda integrar o programa de transferência de renda a projetos como o programa Saúde da Família. Serra também criticou a saúde no governo Lula.

“Política social é transferência de renda, mas é muito mais que isso. É também saúde”, responde Serra, apontando que houve retrocesso na área citada durante o governo Lula.

Dilma exaltou o compromisso do governo federal com “serviços públicos de qualidade” e prometeu desonerar serviços em setores considerados essenciais. “Eu sou a favor de desoneração de serviços públicos fundamentais para a população.”

Dilma aproveitou para exaltar medidas econômicas do governo Lula, dizendo ter formalizado a economia e ampliado o crédito. Serra respondeu: “Cerca da metade da população brasileira ainda está na informalidade”, disse.

O debate, realizado no estúdio da Central Globo de Produção, contou com a participação de 80 eleitores indecisos, que foram selecionados pelo Ibope em todas as regiões do país.

Esses eleitores redigiram perguntas importantes para o futuro na nação, escolhendo temas definidos pela produção. Seguindo as normas acertadas com os candidatos, o debate teve três blocos.

Em cada um deles, quatro eleitores fizeram perguntas. O primeiro candidato a responder em cada bloco foi definido por sorteio. As respostas, as réplicas e tréplicas tiveram duração de dois minutos. Após o fim do terceiro bloco, Dilma e Serra fizeram suas considerações finais, encerrando o último debate da campanha.