Requião: “Nós não
somos um mercado”.

Uma ala do PT do Paraná está em compasso de espera para ver se irá adiante a proposta de quatro dos seis governadores do PMDB de se desvincular do governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT).

Os petistas estão ressabiados porque no grupo que aprovou a declaração de independência em relação ao governo federal em reunião realizada em São Paulo, anteontem, está o governador Roberto Requião, que chama a nova forma de relacionamento com o governo Lula de “apoio crítico”. Líder do governo Requião na Assembléia Legislativa, o deputado Natálio Stica disse que pretendia conversar com o governador para esclarecer melhor sua posição antes de avaliar o impacto da decisão dos peemedebistas na aliança estadual.

Stica observou que se o PMDB aprovar o afastamento – o partido se reúne na próxima quarta-feira (dia 10), em Brasília, para discutir a proposta dos governadores – e se de fato, Requião acompanhar a posição nacional, o PT do Paraná vai ter que sentar para conversar sobre o assunto. “Nesse caso, vamos ter que dar uma discutida. Mas se o governador fizer como sempre fez, destoar da posição nacional do partido, mantendo-se ao lado do governo Lula, nossa aliança aqui no Paraná fica mais fortalecida”, analisou o líder.

Mesma moeda

Já o presidente estadual do PT, deputado André Vargas, acha que o PT do Paraná deve dar ao governador do Paraná o mesmo tratamento que ele dispensar a Lula. “Uma posição dessas do governador tem repercussão no Estado. Se a posição do PMDB for para devolver cargos, os petistas que ocupam cargos no governo estadual também têm que entregar os seus, ainda que as indicações não tenham sido feitas pela instância partidária”, comparou.

Vargas disse que a aliança do PT do Paraná não é com o PMDB, e sim com Requião. E à medida que o governador se afastar do governo Lula, deve esperar uma reação do PT.

“Eu estou sintonizado com a direção nacional que sempre nos orientou a defender o governo Lula sem atacar o governo Requião. Mas se a posição do governador mudar em relação ao governo Lula, temos que rever nossas posições. Por sinal, eu já venho defendendo há tempos que esta aliança seja repactuada”, declarou.

Sem novidades

O deputado estadual Tadeu Veneri não vê novidade na postura adotada por Requião em São Paulo. “O governador já adotou o apoio crítico ao governo Lula há muito tempo. Ele nunca foi um apoiador incondicional. Está certo. Acho que nenhum apoio deve ser mesmo incondicional. Por isso, defendo que a bancada do PT na Assembléia Legislativa tenha uma ação autônoma, que tome suas posições de acordo com a ótica do nosso partido e não do governo do PMDB, que discuta suas posições”, afirmou Veneri.

Para o petista, não se trata de o PT responder ao governador na mesma moeda, mas de reassumir sua identidade como bancada. “O governador está fazendo o que sempre fez. Desde o início, ele criticou a política econômica do governo. Quem precisa mudar somos nós. Precisamos deixar de ser uma bancada terceirizada pelo PMDB”, declarou.

Derrota petista é recado das urnas, avalia Requião

O governador Roberto Requião comentou anteontem à noite em Londrina, onde esteve assistindo ao leilão de gado Red Angus realizado no recinto José Garcia Molina, que a proposta de governadores do PMDB para que o partido busque um novo modelo de política econômica com base nos interesses nacionais de desenvolvimento econômico, proteção da indústria, da inclusão social, de emprego e progresso humanizado. Requião reafirmou sua admiração pelo presidente Lula, mas criticou a política que vem sendo adotada na área econômica. O mesmo procedimento foi adotado pelo presidente nacional da sigla, deputado federal Michel Temer, e pelos governadores Germano Rigotto (RS), Rosinha Matheus (RJ), Joaquim Roriz (Distrito Federal) e Eduardo Pinho Moreira (em exercício em Santa Catarina).

Para o governador, deve-se compreender a derrota do PT nas eleições municipais como uma resposta da população que elegeu um presidente contrário ao modelo econômico neoliberal de mercado, praticado por seu antecessor. “Precisamos separar a visão de que somos um mercado”, disse Requião. “Somos uma nação. Mercado não tem espaço territorial, não tem tempo; ele realiza de forma imediata, às vezes pela internet, os lucros dos grandes interesses capitalistas. Mercado não tem povo; tem consumidor”, explicou.

“Já uma Nação é diferente: ela tem espaço territorial, tempo, história, passado e futuro. E, acima de tudo, tem gente, tem cidadão. E cidadão não é um mero consumidor”, completou. A posição de independência e crítica defendida pelo partido, segundo ele, foi tomada no sentido de mostrar o equívoco do governo federal em seguir esse modelo econômico neoliberal, contrário aos interesses nacionais.

Copel

Para demonstrar que estão corretas as teses defendidas pelo governo estadual contra manobras predatórias de contratos envolvendo estatais paranaenses, o governador lembrou que, na próxima semana, a Copel e o Paraná serão homenageados na Bolsa de Valores de Nova Iorque, com duas intervenções na abertura do pregão e uma palestra no fim do dia.

“Fui atacado quando defendi a Copel e rompi contratos danosos. Defendemos a Copel não aceitando contratos criminosos e, com isso, salvamos a poupança de 15 mil acionistas singulares norte-americanos que teriam perdido todo seu investimento se tivéssemos cedido. Portanto, é preciso separar o investimento internacional, que é bem-vindo, da prática de corsários”, declarou.

Amanhã, o governador Roberto Requião retorna ao Norte do Estado. Junto com o presidente da Copel, Paulo Pimentel, inaugura em Apucarana a subestação Cristo Rei, obra iniciada em maio de 2003 e que demandou investimentos de R$ 8,5 milhões. A subestação irá ampliar o fornecimento de energia à cidade e localidades vizinhas, reduzindo o risco de desligamento em situações de contingência e atraindo investimentos para a região.