Brasília – Em pouco mais de 13 meses, os 5.561 municípios brasileiros realizaram eleições para a escolha de prefeitos (e vice-prefeitos eleitos sem voto) e vereadores. Essas eleições começam a movimentar, no plano mais amplo e nacional, interesses entre deputados federais e senadores, que já começam a articular pré-candidaturas dentro dos partidos e uma participação mais pessoal em determinados municípios.

Essas candidaturas terão reflexo direto na formação da Câmara dos Deputados na sessão legislativa que começa em 1º de fevereiro de 2009, devido à participação dos suplentes – uma vez que aqueles que forem eleitos prefeitos ou vice-prefeitos terão que renunciar a seus mandatos parlamentares para assumir os novos cargos executivos.

Segundo cálculos do cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), um em cada quatro dos 513 deputados federais é pré-candidato a prefeito ou vice-prefeito. Isso significa que, pelo menos, 133 deputados federais estarão envolvidos nessas eleições – que também atraem senadores, a maioria deles candidatos a prefeituras de capitais.

Para Monteiro, as manifestações públicas de pré-candidaturas levam a crer que as urnas devem atrair mais os governistas.

?Só no PT, praticamente um terço dos 81 deputados está de olho em alguma prefeitura. No PCdoB, o gabinete municipal é cobiçado por dez dos seus 13 representantes na Câmara, enquanto a oposição já contabiliza 40 pré-candidaturas".

Em entrevista concedida à Rádio Nacional, nesta semana, o cientista político comentou como fica a representação parlamentar federal, levando em conta as pré-candidaturas de deputados federais e até mesmo de senadores às eleições municipais do próximo ano.

?Em termos de suplência, o senador é substituído automaticamente pelos seus suplentes, mas no caso do deputado federal, vai para seu lugar aqueles imediatamente colocados nos primeiros lugares da suplência, uma pessoa que obteve um determinado número de votos apenas inferior ao titular?.

Para o professor, no caso dos deputados não deve haver prejuízo representativo, porque quem vai assumir é alguém que teve um expressivo número de votos, enquanto o suplente do senador não teve voto algum.

?Acho que esse sistema de suplência dos senadores deveria ser revisto, para não criar os vínculos que assistimos, que são muitas vezes ligações pessoais ou até mesmo de parentesco entre o senador e os seus suplentes".

Sobre a possível influência das eleições municipais sobre a eleição nacional, dois anos depois, o professor afirmou que esse processo tem uma dinâmica própria, assim como as eleições gerais.

"Nas eleições municipais o que está em foco são questões locais, são elites locais que disputam controle e, muitas vezes, conseguem passar ao largo dos grandes problemas nacionais".

Ele lembrou que o interior, as partes rurais mais afastadas, não participam muito diretamente da dinâmica das grandes discussões nacionais. Mas as mesmas eleições municipais nas grandes capitais, nas grandes regiões metropolitanas, tendem a ter uma dinâmica mais nacional, porque muitas vezes se candidatam a prefeito pessoas de expressão nacional e as eleições municipais, nesse caso, ganham grandes contornos nacionais.

"Exemplo disso é o caso de José Serra, em São Paulo, prefeito eleito depois de perder a eleição quando do primeiro mandato do presidente Lula".

Para Monteiro, essa dinâmica das eleições municipais também pode projetar, dois anos depois, candidaturas de deputados federais ou mesmo de governador, pelos acordos que serão feitos nesse espaço de tempo entre as duas eleições.

"Portanto, posso considerar que existe, sim, uma influência da eleição municipal sobre a nacional, principalmente nos estados mais rurais, onde o interior é mais importante, embora essas duas eleições tenham dinâmicas muito diferentes".