Roberto Requião construiu uma trajetória pouco comum na história paranaense. Foi o político que mais vezes governou o estado, por três mandatos. Foi ainda eleito duas vezes senador, prefeito de Curitiba por um mandato e deputado estadual. É um dos políticos mais antigos com cargo eletivo atualmente no Paraná – perde apenas para o também senador Alvaro Dias, que começou a carreira em 1969, como vereador de Londrina.

Mas, depois de 36 anos consecutivos no poder, Requião ficará sem cargo eletivo a partir de 1º de fevereiro de 2019, quando termina seu mandado de senador da República pelo MDB.

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A derrota de Requião nas eleições deste ano compõe o rol de grandes surpresas na política estadual, incluindo aí a eleição do até então pouco conhecido Oriovisto Guimarães (Podemos). O emedebista, marcado por grandes polêmicas, vitórias e derrotas, liderava com folga as pesquisas de intenção de votos até a véspera das eleições. Mesmo com forte base nos municípios, não resistiu ao terremoto provocado pela candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República e a liderança disparada de Ratinho Junior (PSD) ao governo estadual, além da prisão do ex-governador Beto Richa (PSDB).

Faltando poucos mais de dois meses para o primeiro turno, em 4 de setembro, pesquisa do Ibope mostrava Requião líder com folga na corrida ao Senado. Ele tinha 43% das intenções de voto, seguido pelo ex-governador Beto Richa (28%), Flávio Arns (17%) e Alex Canziani (11%). Oriovisto era citado por apenas 3%.

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A reeleição parecia tranquila nas pesquisas seguintes, apesar de um terremoto provocado pela prisão de Richa nas investigações da Operação Rádio Patrulha, que apura cobrança de propina e fraude de licitação na contratação das Patrulhas do Campo. Em levantamento na véspera da eleição, Requião mantinha folgados 38% e tudo indicava que a vaga estava garantida.

Aberta as urnas, veio a surpresa. O senador amargou um terceiro lugar, com apenas 15% dos votos – menos da metade do previsto pela pesquisa divulgada no dia anterior. Oriovisto ficou em primeiro lugar e Flávio Arns garantiu a segunda vaga.

Dúvidas sobre o futuro de Requião

Com Requião sem cargo eletivo a partir de fevereiro, muitas são as dúvidas sobre o futuro dele, especialmente por se tratar de uma figura que centralizou boa parte da política paranaense nas últimas décadas. A reportagem entrou em contato com o gabinete do senador, que preferiu não dar entrevista.

Uma coisa, entretanto, é certa: para quem convive com o emedebista e também para analistas, mesmo sem cargo ele não perderá totalmente o poder. E quase todos apostam que ele terá papel decisivo nas eleições municipais, daqui a dois anos.

“Embora tenha idade significativa – vai fazer 78 anos – , o Requião tem uma saúde de ferro. E ele tem espaço ainda, liderança, vai perseverar na política. A perda do mandato eletivo não o eliminará da cena política. Certamente ele vai disputar outras eleições”, disse o deputado Luz Cláudio Romanelli (PSB).

Requião sempre esteve no centro do poder político do Paraná e do Brasil. O que será do amanhã para Roberto? Foto: Arquivo
Requião sempre esteve no centro do poder político do Paraná e do Brasil. O que será do amanhã para Roberto? Foto: Arquivo

Mais cauteloso, o filho do senador, deputado estadual Requião Filho, também descarta a aposentadoria de Requião neste momento, mas diz que ele não deve disputar eleição a curto prazo. “O Requião vai continuar sendo a referência no MDB. Não existe MDB no Paraná sem o Requião. A médio prazo eu vejo que ele pode voltar a disputar eleição, mas a curto prazo não”, avalia.

Para o cientista político Doacir Quadros, professor do grupo Uninter, Requião continuará como uma liderança política ainda muito atuante na política paranaense. “Ele teve uma derrota eleitoral, mas isso não significa o fim de sua trajetória política. Essa derrota nas urnas estava mais ou menos anunciada, ele vinha sofrendo desgaste. Mas isso não é o fim da carreira dele”, diz.

Um dos poucos que desenham cenário menos ativo para Requião é seu sobrinho, o deputado federal e candidato derrotado nas eleições ao governo do estado João Arruda. “Um cara que tem uma história como o político mais vitorioso do Paraná e uma grande participação no cenário político nacional, talvez seja o momento de ele descansar um pouco e contribuir de outras maneiras, opinando, sugerindo, incentivando candidaturas”, sugere.

Dedicação a biografia divide opiniões

Quando fala em contribuir de outras maneiras, Arruda cita, por exemplo, a publicação de uma aubiografia. “Essa longa história demonstra que talvez seja a hora de o Requião sair um pouco do centro da política, do exercício dos mandatos, e ocupar um outro espaço na vida, estar mais conectado com a família, com os eleitores, com as pessoas em geral. Enquanto ele estiver vivo com certeza vai contribuir com a política paranaense, mas poderia dedicar este momento para escrever a biografia da vida dele. Por tudo que passou, ele tem muito a contar sobre a política paranaense, a política nacional, seria uma grande contribuição para a Fundação Ulisses Guimarães, para o acervo histórico do partido”, defende.

A ideia da biografia tem a simpatia do filho. “Eu adoraria fazer essa biografia do Requião, é um legado, é uma história, mas não vejo ele com essa vaidade. Ele não me disse nada sobre isso, mas ele não é vaidoso nesse aspecto”, pondera.

Teria interesse na prefeitura de Curitiba?

O primeiro desafio para Requião depois de se afastar do Senado são as eleições municipais. Interlocutores garantem que ele não tem nenhum interesse em concorrer à prefeitura de Curitiba. No entanto, há quem desconfie e acredite que, dependendo da conjuntura, ele pode se lançar.

“Todos conhecem a capacidade de articulação do Requião aqui no estado. Ele é o MDB no Paraná e vice-versa. Eu avalio que ele terá papel central na eleição em Curitiba, e não descarto que possa a vir a concorrer”, afirma Doacir Quadros.

Requião Filho discorda da tese de Requião candidato já em 2020. “Tem esses ensaios, gente falando que o Requião vai ser candidato a prefeito de Curitiba. Sinceramente não vejo ele querendo isso”, diz.

Poderia concorrer para vereador?

Em meio a tantas sugestões para o futuro político do senador, a tese de ele pode repetir o feito do petista Eduardo Suplicy, que após sair do Senado foi eleito vereador por São Paulo, ganha adeptos.

“A única coisa que o Requião não foi ainda é vereador da cidade onde ele nasceu. Seria muito interessante. Não pareceria que ele estaria diminuindo de tamanho a essa altura da vida. O pai dele, o meu avô, Wallace Tadeu de Melo e Silva, foi vereador. O Requião não foi. Nunca tive essa conversa com ele sobre isso e não estou autorizado a falar, mas entendo que ele exercer um cargo o qual ele nunca exerceu seria grandioso nessa etapa da vida”, argumenta João Arruda.

A ideia, também não descartada por Romanelli, é rebatida por Requião Filho. “Quem fala em ele ser candidato a vereador está brincando. Você sair de um cenário onde se discute a macroeconomia, a geopolítica global, para discutir a valeta do Orleans não faz sentido. Não tem chance de ele se empolgar com uma proposta dessa”, dispara.

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