A dificuldade de ter um espaço na bancada do PSDB e a incompatibilidade com a oposição ferrenha ao governo levaram a senadora Lúcia Vânia (GO) a deixar o partido. Ela fará na tarde desta quarta-feira seu primeiro discurso no Senado após a saída. Em um jantar promovido com a presença de senadores do PSB e com Marta Suplicy (sem partido-SP) na noite desta terça-feira, 16, em sua casa, Lúcia disse a interlocutores que deve se filiar ao PSB em agosto. No encontro, Marta também disse que seguirá o mesmo caminho.

A desfiliação de Lúcia vem depois de ela ter sido preterida na composição da Mesa Diretora do Senado. O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, indicou Paulo Bauer (SC) para a vaga, desautorizando sua iniciativa de concorrer ao posto com apoio de Renan Calheiros (PMDB-AL).

“Me massacraram quando o Renan impôs a minha candidatura como primeira-secretária. Ele jogou a isca e o Aécio mordeu o anzol. Na verdade Aécio Neves podia ter dito: agradeço a indicação, reconheço o valor da senadora, mais vamos discutir internamente na bancada, e não levantar suspeita sobre o meu voto”, afirmou a senadora na ocasião.

O voto da senadora para a presidência do Senado também foi questionado – a bancada tucana decidiu apoiar Luiz Henrique (PMDB-SC), mas Renan acabou tendo um voto. Lúcia Vânia negou que tivesse sido a dissidente. O episódio gerou desconforto e, segundo a senadora, que foi coordenadora da campanha de Aécio Neves em Goiás, a atitude do partido a deixou em uma situação vexatória. “Naquele momento fiquei muito indignada. Tive um comportamento correto durante minha vida inteira dentro do partido. O meu voto não tinha que ser questionado. Aquilo foi a gota d’água.”

Histórico

O descontentamento de Lúcia Vânia com o PSDB não é novo. Além do incidente no início do ano legislativo, a senadora aponta a dificuldade de ter um espaço no partido no qual ficou 20 anos. “Todas as minhas candidaturas sempre foram muito aguerridas. Eu nunca tive uma vaga por merecimento. Já estava aborrecida com essa luta que sempre tinha que enfrentar cada vez que havia uma renovação”, reclama Lúcia Vânia.

A posição antigovernista ferrenha do partido também pesou na saída. A senadora afirma que não se sente confortável com o posicionamento do PSDB, mas também não se vê passando para o lado governista. Apesar de não afirmar para qual partido irá se filiar, Lúcia fala sobre possíveis novas casas. “Fui eleita como oposição e acho que devo continuar assim. O PSB tem uma posição mais independente, bons projetos e tenho um bom relacionamento com a bancada. Acho que é o meu caminho natural”, conta.

A decisão de sair do partido se deu em fevereiro, mas a senadora aguardou a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre fidelidade partidária para oficializá-la. Depois de o STF decidir que, em cargos majoritários, o dono é o candidato, e não o partido, Lúcia Vânia entregou o protocolo de desfiliação. A oficialização foi feita na última terça-feira, 9.

PSDB

Mesmo com a saída turbulenta, Lúcia Vânia diz que sua relação com membros da bancada do partido não fica abalada. “Já conversei com Aécio. Ele se explicou e eu me expliquei. Sempre tive um bom relacionamento com todos os membros, principalmente com o Fernando Henrique Cardoso, de quem fui secretária. Sempre tive muito apoio dele”, afirma.

Em votação para eleger o comando do PSDB em São Paulo no último domingo, 14, o nome de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, foi apontado como possível candidato à Presidência em 2018. A senadora Lúcia Vânia o vê como um nome forte. “Ele teve um bom desempenho nas últimas eleições. É um nome forte em todo o Brasil, não apenas em São Paulo. Acho que é um bom quadro”.