Carlos Simões quer saída da
cúpula do partido no Paraná.

O deputado Carlos Simões (PTB) defendeu ontem, na tribuna da Assembléia Legislativa, o afastamento do que chamou de “cúpula dos sem voto” da direção do partido no Paraná.

O deputado reagiu às denúncias publicadas pela revista Veja no último final de semana, de que o PT ofereceu R$ 150 mil para cada deputado, material de campanha e cargos para o PTB apoiar as candidaturas petistas nas eleições municipais.

O valor total da negociação seria, segundo a revista, R$ 10 milhões.

Falando também em nome do irmão, o deputado federal Íris Simões, presidente do diretório estadual, Carlos Simões disse que são públicos e notórios os encontros que ambos tiveram com o candidato Angelo Vanhoni (PT) e com o coordenador de sua campanha, o secretário de Educação, Maurício Requião (PMDB).

“Na oportunidade, foram divulgadas as propostas do PTB que Vanhoni assumiu como compromisso de governo”, lembrou, para explicar que as críticas da chamada ala esquerda do PT acabou por afastar os irmãos da campanha: “Não participamos de nenhuma negociação financeira ou de qualquer outra ordem. O acordo PT-PTB no Paraná foi conduzido por Flávio Martinez, e não sei sequer em que bases. Íris e eu estamos fora da campanha em Curitiba. Nossa proposta é permanecer quietos e não apoiar ninguém, em respeito ao fato de o PTB ter um acordo com o PT em Curitiba. Até podemos vir a apoiar Vanhoni, mas no 2.º turno”, acrescentou o deputado.

Denúncias infundadas

O líder do governo na Casa, deputado Natálio Stica (PT), disse que só tinha sobre o caso as informações divulgadas pelos jornais: “Preciso saber mais detalhes sobre as denúncias. Mas digo de antemão que o PT não compra nem o PTB vende seus votos”, afirmou.

O presidente do diretório estadual do PT, deputado André Vargas, questionou a autoridade moral do PFL e do PSDB para propor uma CPI sobre o assunto no Senado: “Ambos já foram governo e obstruiram uma CPI sobre a venda da Embratel pelo governo Fernando Henrique Cardoso. A matéria da Veja, que gerou toda a polêmica, não cita fontes nem documentos, portanto não justifica essa movimentação exagerada da oposição”.

Vargas ponderou que defendeu, desde o início das conversas que culminaram com a formação da coligação Tá na Hora, Curitiba, a participação do PTB, que já integrava a base de apoio ao governo federal: “Temos aliança com o PTB em vários municípios. Em outros, ele é nosso adversário. São alianças políticas, como é comum no jogo político-eleitoral. Não temos e jamais tivemos acordos financeiros”, protestou.

Até o final da tarde de ontem, o vice-presidente do diretório nacional do PTB, Flávio Martinez, não havia se manifestado oficialmente sobre as denúncias envolvendo seu partido.

A cronologia da polêmica no PR

Fevereiro

– Lançamento da aliança PT-PMDB-PTB, com as presenças do deputado estadual Angelo Vanhoni (PT); do secretário estadual da Educação, Mauricio Requião (PMDB); do presidente do Diretório Regional do PTB deputado federal Iris Simões; e do deputado estadual Carlos Simões (PTB).

Março

– Encontro estadual do PTB.

– O presidente nacional do PTB, deputado federal Roberto Jefferson, e o deputado estadual Jocelito Canto criticam duramente o PT e aprovam a tese da candidatura própria, desfazendo a aliança entre os partidos.

– O Diretório de Curitiba lança a candidatura do empresário Flávio Martinez (irmão do ex-deputado federal e ex-presidente nacional do partido José Carlos Martinez) à Prefeitura de Curitiba.

Abril/maio

– Flávio Martinez participa de eventos, já como pré-candidato a prefeito de Curitiba.

– Os deputados Iris e Carlos Simões protocolam desligamento do Diretório Municipal do PTB por serem contrários ao lançamento da candidatura a prefeito, argumentando que o objetivo desta atitude seria o de negociar a retirada da candidatura posteriormente.

Junho

– Encontro entre Flávio Martinez e o ministro Luiz Gushiken (Comunicação de Governo e Gestão Estratégica), em Brasília, como divulgou a imprensa local, com o objetivo de negociar recursos de empresas e autarquias estatais para o PTB por meio da CNT (emissora de propriedade de Martinez).

– Reunião de Flávio Martinez, Emerson Palimeri (dirigente municipal do partido) e Roberto Jefferson com Luiz Gushiken e José Genoíno (presidente nacional do PT) para fechar apoio do PTB aos candidatos do PT em Curitiba (o deputado estadual Angelo Vanhoni) e em várias outras cidades brasileiras.

– Jocelito Canto renuncia à candidatura a prefeito de Ponta Grossa em benefício do atual prefeito, Péricles de Mello (PT).

– Encontro de Flávio Martinez com o governador Roberto Requião (PMDB) e o assessor especial Daniel Godoy (PT) para discutir a participação do PTB no governo do Estado.

– Encontro de Flávio Martinez com Angelo Vanhoni e Mauricio Cheli (PT) para discutir a participação do partido no caso da vitória do candidato do PT a prefeito.

– Renúncia de Flávio Martinez à candidatura a prefeito de Curitiba.

Deputados batem boca na AL

Exibindo cópia de ata da reunião realizada pelo PTB municipal em 31 de junho, Simões lembrou que, em encontro estadual realizado pelo partido em março deste ano, dirigentes da agremiação fizeram duras críticas a ele e a seu irmão, considerando precipitada a proposta de coligação com o PT: “Decidiu-se pelo lançamento de candidatura própria. Isso resultou num conflito pessoal com o deputado Jocelito Canto no plenário da Assembléia, porque ele defendia radicalmente a candidatura própria. Em razão da situação, Íris e eu protocolamos no diretório municipal a nossa renúncia por discordamos do lançamento de candidatura à prefeito “laranja” para fazer negociação posterior”, afirmou.

Depois disso, continuou, tanto o candidato lançado em Curitiba como Jocelito Canto, que iria disputar a Prefeitura de Ponta Grossa, “estranhamente renunciaram às suas candidaturas”. “Como Íris e eu não aceitamos a condução desse processo e dele não participamos, nós nos afastamos da campanha de Curitiba e passamos a fazer campanha para os candidatos do PTB no interior do Estado. E assim nos mantemos até hoje”.

Canto não gostou das afirmações de Simões e os dois se engalfinharam num bate-boca, levando o presidente da mesa executiva, deputado Hermas Brandão (PSDB) a suspender a sessão por três minutos para que os ânimos se acalmassem. Segundo Carlos Simões, Íris vai hoje a Brasília manifestar à direção nacional do partido sua posição a respeito do assunto. (SCP)

PSDB e PFL cobram CPI

Brasília

– A oposição decidiu articular contra o suposto acordo entre PT e PTB que envolveria mais de R$ 8 milhões. O PSDB prepara um requerimento pedindo abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado e o PFL ingressou com denúncia no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra os dois partidos. “A nação ficou estarrecida com as denúncias. É um fato inusitado e inaceitável na política brasileira”, afirmou Bornhausen, na Assembléia Legislativa de São Paulo. “Vamos pedir ao TSE que cheque as transferências. Se não forem verbas registradas nas contas do PT ficam fortíssimos os indícios de caixa-dois. Mais do que uma questão legal, a transação é imoral.”

A acusação deve ser levada ao TSE amanhã. Bornhausen reiterou a necessidade de abertura da CPI. “É preciso apurar se houve transferência de recursos de um partido para o outro”, diz Bornhausen, em nota divulgada no site do partido. Ele não descartou ainda a hipótese de o PFL propor a criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) a respeito do caso.

Antes disso, a sigla aguarda uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a indicação dos integrantes da CPI dos Bingos, que não foi instalada porque a base governista não indicou os membros. “O esquema do governo é abafar para esquecer”, afirmou Bornhausen. Se criada a “CPI da cooptação”, conforme o presidente nacional do PFL batizou, as investigações deveriam incluir as investidas do PT e aliados sobre as demais agremiações, desde logo após as eleições de 2002.

Denúncia

Segundo reportagem da revista Veja, o PT teria prometido dinheiro a cada parlamentar do PTB, além de verba para campanhas, em troca de apoio político em algumas chapas consideradas importantes pelos petistas. O PT não estaria cumprindo o acordo e os petebistas estariam próximos a romper a aliança com o governo.

Para uma comissão ser instalada, são necessárias pelo menos 27 assinaturas de senadores. Segundo o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), as assinaturas devem ser recolhidas após o primeiro turno das eleições municipais, em 3 de outubro. Até lá, o Senado trabalha em “recesso branco”, sem parlamentar na Casa.

Virgílio diz que recebeu “com tristeza” o conteúdo do suposto acordo. “Eu quero confirmar, e depois investigar isso”, afirma. “Estou avisando há muito tempo: cuidado com o Delúbio”, diz, em referência ao tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

“Matéria não tem RG e CPF

O presidente nacional do PT, José Genoino, criticou ontem a matéria da revista Veja sobre um suposto acordo financeiro para que o PTB apóie o PT nas eleições. Em entrevista ao Portal do PT, ele ressaltou o fato de a reportagem não ter qualquer fonte e não citar ninguém que assuma a denúncia. O dirigente petista informa que o partido vai reivindicar direito de resposta à publicação.

Qual sua avaliação da denúncia feita pela revista Veja contra o PT?

Genoino – Vou manter o que já disse publicamente: os nossos acordos com o PTB são de natureza política e eleitoral. Envolvem o PTB em algumas candidaturas a vice, coligações proporcionais e a possibilidade de participação em governos que a gente ganhe. Nunca tivemos acordos financeiros ou ajuda em dinheiro. A matéria não tem nenhuma fonte, ninguém assume a denúncia. É uma matéria sem RG, CPF ou endereço.

Sarney sai em defesa de Dirceu

 O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), saiu ontem em defesa do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que, segundo denúncia da revista Veja, seria um dos articuladores do negócio de R$ 10 milhões envolvendo o PT e o PTB. Sarney considerou a matéria da revista “meramente especulativa” e disse que Dirceu está sendo “vítima de notícias impróprias”.

“As notícias estão sendo muito rigorosas e até mesmo impróprias em relação ao ministro José Dirceu”, afirmou Sarney, ao reconhecer que na reta final das campanhas municipais o número de denúncias está aumentando. Sarney saiu em defesa de Dirceu sem que ninguém tivesse feito pergunta específica sobre o ministro da Casa Civil. “A matéria é meramente especulativa; não tem nenhum fato. Não entra na minha cabeça que possa ocorrer alguma coisa dessa natureza”, completou o presidente do Senado.