A agricultura brasileira está caminhando para uma nova crise, segundo avaliação de diversos líderes do setor que se reuniram por cerca de cinco horas na Câmara dos Deputados para debater os altos custos de produção e os baixos preços dos produtos no mercado. Segundo o presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, deputado Leonardo Vilela (PP-GO), a situação dos agricultores se agravou nos últimos meses com a elevação dos custos da produção e queda das cotações. “O cenário de hoje é absolutamente diferente de três meses atrás; o setor está perigosamente entrando num processo de endividamento”, alertou o coordenador do seminário, traçando um cenário oposto ao que vinha sendo traçado com os bons resultados da agricultura.

O presidente da Comissão Nacional de Cereais, Fibras e Oleaginosas, da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Marcel Caixeta, disse que poderá haver quebra de safra por conseqüência da queda de renda do produtor e do atraso na liberação do crédito rural. “É preciso que os recursos venham logo antes que seja tarde”.

Caixeta, que é de Goiás, disse que em seu Estado foram liberados apenas R$ 600 milhões para o custeio quando eram esperados R$ 1,9 bilhão. Segundo ele, de 2003 para cá, os preços dos fertilizantes subiram até 58%, os dos inseticidas até 34% e os dos fungicidas, 12%. No mesmo período, os preços do arroz caíram mais de 10% e os da soja estão estagnado.

Para comprar um trator, segundo ele, o produtor necessitava vender 1.636 sacas de 60 quilos de soja e hoje precisa de 2.343 sacas para obter a mesma máquina. Ele reclama não só da escassez de recurso como dos congelamentos do limite de financiamento por produtor. Neste ano, há R$ 17,7 bilhões para crédito rural, 7,9% superior aos R$ 16,4 bilhões de 2003. Mas segundo a CNA, seriam necessários R$ 56,2 bilhões de crédito oficial.

O governador de Goiás, Marconi Perillo, que também participou do debate, cobrou medidas do governo, especialmente da área econômica, para evitar um agravamento da crise do setor. Se não houver medidas corretivas, alertou, será necessária uma ampla mobilização nacional.

Sob controle – Em resposta às críticas, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin, disse que ainda não há uma crise instalada na agricultura. “Por hora, as evidências são de que o endividamento está sob controle”, afirmou. Ele garantiu que o governo acompanhará de perto não só o endividamento do setor como o processo de comercialização da safra para detectar eventuais problemas. “Estamos sintonizados com as demandas de curto prazo”, acrescentou.

O secretário sugeriu aos agricultores que analisem com cuidado seus custos, contabilidade e a situação do mercado no momento em que definirem o produto a ser plantado. Ele destacou que a agricultura brasileira está sujeita a oscilações de mercado e comentou especificamente o caso da soja, cujos preços estão em queda.

Wedekin ressaltou que os recursos para a comercialização da safra 2004/05 serão duas vezes maior em volume do que na safra anterior.

Enquanto em 2004 o Orçamento previu R$ 270 milhões para as operações oficiais de crédito, o de 2005 está destinando R$ 530 milhões. O secretário afirmou que espera que os deputados acrescentem mais R$ 300 milhões por meio de emendas. Na safra estão sendo destinados R$ 35,8 bilhões para custeio e R$ 10,7 bilhões para investimento agrícola. Na safra 2003/04 foram destinados R$ 30,9 bilhões para custeio e R$ 7 bilhões para investimento.

O presidente da Comissão garantiu que o Congresso garantirá R$ 800 milhões para a comercialização da safra agrícola 2004/2005. Vilela disse que a Comissão de Agricultura está montando uma força-tarefa para atuar na Comissão Mista de Orçamento, após as eleições, e conseguir aprovar pelo menos R$ 270 milhões adicionais em emendas. “Oitocentos milhões é o mínimo do mínimo”, defendeu o deputado.