João Manuel Simões

Li há alguns anos, no jornal The New Republic, de Nova York, um artigo interessantíssimo, de autoria do norte-americano Paul Robinson, com o seguinte título: ?Por que escreve o escritor??. No texto em apreço, o autor tinha oportunidade de abordar, em profundidade, uma problemática fascinante. Mas sem chegar a esgotá-la, evidentemente.

Quais são realmente os motivos determinantes que levam o escriba ao exercício quotidiano do ato quase litúrgico da escrita? Por que escrevem, de fato, os inumeráveis escritores deste nosso velho planeta, entre os quais modestamente me incluo? Perante a solidão virginal do papel em branco, como diria Malraux, o que nos leva a lançar na folha sem culpa, legiões, exércitos desses arabescos gráficos que Shakespeare chamou de ?words, words, words?? Se bem me lembro, ou se a minha memória não falha, Robinson tinha oportunidade de elencar uma série de razões marcantes. Mas esquecia outras, talvez até mais ponderáveis, pela minha ótica.

Do depoimento robinsoniano ? ou seria antes confissão? ? depreendia-se que as razões fundamentais seriam estas: 1) Para ganhar dinheiro, para ficar rico. 2) Para conquistar fama ou prestígio. 3) Para obter uma cátedra na Universidade ou um cargo (sinecura) num Ministério, na Câmara dos Deputados, no Senado ou numa empresa estatal. 4) Para dialogar (indiretamente) com uma platéia desconhecida, ou com um grupo de amigos ou familiares (e dava o exemplo de sua mãe, que sempre lhe dizia da impossibilidade de chegar ao meio dos seus livros, já que não entendia o significado da maioria das palavras que o filho empregava…). 5) Porque os críticos estão à espreita, ou porque os estudiosos e os especialistas no assunto estão de antenas ligadas. 6) Simplesmente, para dizer a verdade. E este talvez seja o melhor de todos os motivos arrolados pelo ianque.

Não há dúvida que todas essas razões poderão estar na raiz, em maior ou menor grau, com maior ou menor intensidade, do ato de escrever. Algumas delas, porém, são típicas do ?american way of life? e da sua visão pragmática (e utilitarista) das coisas. Não correspondem inteiramente à realidade dos ?tristes trópicos? de Lévy-Strauss… A verdade é que o tema não se esgota nas colocações esquemáticas de Paul Robinson. Há certamente outras razões. Há outros motivos. Vamos a eles.

O escritor pode escrever apenas ludicamente, pelo prazer da escrita, para fruir a beleza estética da própria palavra tornada emblema, metamorfoseada em insígnia verbal, como acontece com Dante ou Shakespeare, Rimbaud ou Verlaine, Pessoa ou SáCarneiro, Montale ou Ungaretti, Neruda ou Guillén, Eliot ou Ezra Pound, Séferis ou Kaváfis, Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade, etc, etc. Pode escrever para confessar-se, para mostrar os próprios labirintos interiores, como acontece com Proust ou Joyce, Kafka e Wassermann e ?tutti quanti?.

Mas, ao lançar as suas palavras no papel, o escritor pode ser também testemunha ? de acusação ou de defesa ? no processo existencial de que participa e ao qual se submete. Victor Hugo, Balzac, Zola, Dickens, Tolstoi, Dostoiewski, Eça, Machado, Faulkner, Steinbeck, Thomas Mann, Gallegos, Graciliano Ramos, Ferreira de Castro, Malraux, Camus, Soljenitsin, Jorge Amado e tantos, tantos outros, ficariam bem dentro desse modelo.

Mas o escritor pode escrever ainda por uma estranha e irresistível compulsão interior. Ou por uma iniludível consciência de missão. Talvez seja esse o modo mais eloqüente de proclamar: estou vivo! Parafraseando Descartes, ele poderá dizer: escrevo, logo existo. Afinal, escrever é preciso. Não se trata de um mero ato lúdico, inconseqüente, mas antes de um exercício consciente e responsável de instauração ética, de promoção humana, de progresso social…

O escritor, não me canso de afirmá-lo, não se situa à margem dos homens e dos seus problemas, da vida e das suas realidades, da vida e das suas manifestações. Ele deverá realizar a síntese verbal do homem, o resumo discursivo do mundo, o precipitado dialético da vida. Do homem, pelo homem, para o homem: eis aí o lema, o destino, a programática de toda a criação literária genuína e autêntica.

Um grande escritor, pois, com as exceções que sempre confirmam as regras, é por excelência um humanista. Está a serviço dos homens, da humanidade. Assim, tanto a criação ficcional, como a concentração dramática, a transfiguração poética ou a exegese crítica (também criadora, só que de idéias), são fórmulas de um processo catártico em que o homem se purifica e a sociedade se higieniza. E integram um poliedro imenso. Um poliedro cujo centro é o homem, cujo espaço é o mundo e cujos vértices polarizam a própria vida.

 João Manuel Simões é poeta e prosador.