O ministro da Defesa, Nelson Jobim, é e faz questão de ser o oposto de seu antecessor, o baiano Valdir Pires. Enquanto este é um homem afável, conciliador e de tal mansidão que até parecia um inativo descansando numa espreguiçadeira, o gaúcho Jobim procura vender a imagem do realizador, do pragmático, do que quer resultados e não teorias. Em depoimento à CPI do Apagão Aéreo, ele declarou que não está disposto a discutir hipóteses para solucionar o problema dos controladores aéreos. Quer resultados concretos. Aceita a desmilitarização do serviço, desde que tal se prove mais eficiente. Senão, permanecerá sob controle da Aeronáutica. ?Por questão de formação filosófica, não discuto teses, teorias, discuto resultados. Eu quero saber o que funciona, o que lembra frase de Deng Xiaoping (líder comunista chinês): não importa a cor do gato, mas que ele coma o rato. O que temos que fazer é comer o rato?, afirmou Jobim.

O ministro da Defesa enfatiza que sua principal preocupação é garantir a segurança dos passageiros do transporte aéreo. Estabeleceu como prioridades segurança, regularidade e pontualidade. ?É nessa ordem. Eu posso sacrificar a pontualidade pelo bem da segurança, mas não posso sacrificar a segurança em prol da pontualidade?, afirmou. Aliás, nesse sentido já disse, logo que assumiu o cargo, algo que em princípio espantou, mas logo foi compreendido. Declarou que a balbúrdia nos aeroportos, com os atrasos, esperas longas, filas e até suspensões de vôos eram parte do preço a pagar pela segurança dos passageiros. Verdade, embora outros fatores, como desorganização, multiplicidade de órgãos cuidando da mesma coisa, ou melhor, descuidando, e falta de autoridade, além das más condições do sistema, tenham uma larga parcela de responsabilidade pelo caos aéreo. A maior parcela.

Jobim foi também pragmático ao declarar aos membros da CPI que não vai procurar culpados pela crise, mas sim trabalhar para resolver os problemas. ?Não estou preocupado em retaliar o passado, buscar responsabilidades. Quero olhar o futuro?, afirmou. E está sendo efetivamente objetivo e prático ao defender mudanças na malha aérea nacional para fortalecer a aviação regional. Também quando determina melhorias nos aeroportos de São Paulo, a transformação de outros aeroportos, como os de Curitiba, Confins, Guarulhos e Brasília, como ?hubs?, reservando ao precário Congonhas o papel principal de início e fim de vôos destinados a São Paulo.

Talvez a recente declaração do ministro Jobim de que os aviões terão de levar menos passageiros venha a ser das mais discutidas e de conseqüências ainda nem pensadas. Ele, do alto de seu 1,90 metro de altura e um corpanzil respeitado, reclamou da falta de espaço entre as poltronas dos aviões. Lembrou que homens como ele têm de viajar como sardinhas em lata, espremidos em aeronaves que são imaginadas para ter o maior número possível de assentos. Acrescentou que vai exigir novas configurações para que o conforto dos passageiros seja preservado. Ótimo, mas uma medida que não terá só a benéfica conseqüência de melhor atendimento aos passageiros. Essa medida vai resultar em aumento nos preços das passagens aéreas, pois um mesmo avião levando menos gente arrecada menos. E a aviação comercial está longe de ser um negócio da China. Se fosse, não ocorreriam no Brasil e mundo afora tantas crises em companhias aéreas, muitas sendo vendidas, outras estatizadas e não poucas falindo. Essa indescartável conseqüência do aumento das passagens também será resultado de mais uma posição objetiva de Jobim. A visão de que os problemas que os passageiros vêm enfrentando nos aeroportos são, em parte, o preço da segurança. E se segurança é prioridade, a redução no número de passageiros e a volta à ordem só serão conseguidas com o aumento dos preços das passagens. Ser pragmático, buscar resultados, enfim, agir objetivamente como faz o ministro da Defesa, é sempre desejável e positivo. Mas tem o seu preço.