O presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Banestado, senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), disse que o depoimento do promotor de Justiça em São Paulo, Sílvio Antonio Marques, hoje pela manhã, trouxe contribuições coincidentes com as linhas de investigação da comissão. Afirmou também que, depois dos depoimentos do contador da construtora ?Mendes Júnior?, Simeão Damasceno de Oliveira, e de Nicéia Teixeira de Camargo, a CPI já terá condições de marcar as datas de convocação para os depoimentos dos ex-prefeitos de São Paulo Celso Pitta e Paulo Maluf.

Essa decisão deve ser tomada na próxima quinta-feira, dois dias antes da viagem de cinco membros da comissão a Washington e Nova Iorque, para encontros com autoridades da Justiça e do Ministério Público americanos.

No seu depoimento, Sílvio Marques confirmou a existência de contas ilegais do ex-prefeito Paulo Maluf no exterior, tendo como origem dinheiro ilegalmente remetido para bancos na Suíça e França e repassados para paraísos fiscais. Disse ainda que o Ministério Público de São Paulo só não apresentou denúncia contra Maluf e alguns dos seus familiares (a mulher, Sílvia, o filho, Flávio, e a nora, Jacqueline) porque os advogados do ex-prefeito conseguiram bloquear, em Genebra, as ações de quebra de sigilo internacional dessas contas bancárias.

Numa exposição documentada com transparências exibidas aos poucos senadores e deputados que compareceram à reunião, que ficara reunida até as 23h30 de quinta-feira, o promotor Sílvio Antonio Marques revelou todo o processo da origem e remessa ilegais de propinas recebidas por Paulo Maluf de empreiteiras envolvidas na construção de obras de sua última gestão.

Ele deteve-se especialmente sobre o caso da construção da avenida Águas Espraiadas, pela construtora ?Mendes Júnior?, informando que a obra deveria ter custado R$ 250 milhões, mas que saiu por R$ 800 milhões. De acordo com o promotor, a Prefeitura pagava à empreiteira que, por sua vez, pagava as cerca de onze subempreiteiras, que devolviam os valores em cheques equivalentes a 90 por cento do valor das notas fiscais ?frias?.

Os cheques, então, eram trocados por dólar ou entregues diretamente a doleiros, que depositavam os recursos em contas de ?laranjas?, que os depositavam novamente em contas de outros ?laranjas?. Paulo Maluf seria beneficiário de 20 por cento desse valor e assessores, como o ex-secretário de Obras de Maluf, Reynaldo de Barros, receberiam 17 por cento.

O ex-prefeito Celso Pitta teria recebido um percentual menor, 15 por cento, nesse mesmo esquema de propina nos anos de 1999 e 2000.

O promotor foi contestado pelos deputados Paulo Kobayashi (PSDB-SP) e Edmar Moreira (PL-MG), por ter baseado suas denúncias no depoimento do contador da Mendes Júnior, Simeão Damasceno de Oliveira. Depois de três depoimentos perante o Ministério Público confirmando o esquema de propina dos ex-prefeitos Maluf e Pitta, Simeão teria ido a um cartório em São Paulo e desmentido oficialmente tudo o que falara.

O promotor afirmou que, mesmo que Simeão tenha negado em cartório os depoimentos, outras pessoas confirmaram as denúncias, como Joel Guedes Fernandes, responsável pelo ?caixa 2? da ?Mendes Júnior?, Nicéia Teixeira de Camargo, ex-mulher de Celso Pitta, Ricardo Augusto da Costa e Sérgio Lima Santoro. Ademais, alegou o promotor, Simeão teria ido ao cartório com um advogado de Maluf.

A próxima semana será decisiva, no entender do presidente da CPI para os rumos da comissão. Estão previstos os depoimentos dos ex-diretores de Fiscalização do Banco Central, Cláudio Mauch e Tereza Grossi (na segunda-feira, 18); Simeão (dia 20); Nicéia Teixeira de Camargo e o ex-governador do Paraná, Jaime Canet, que foi dirigente do Banco Araucária (na quinta-feira, 21). As sessões serão realizadas sempre à tarde. Na manhã de sexta-feira (22), serão ouvidos os ex-dirigentes do Banestado Eraldo Ferreira e Ricardo Franckzyck.

No sábado (23) uma delegação da CPI irá a Washington e Nova Iorque. Integrarão o grupo Antero Paes de Barros, o relator, deputado José Mentor (PT-SP) e os deputados Rodrigo Maia (PFL-RJ), Edson Andrino (PMDB-SC) e Dr. Hélio (PDT-SP), além de representantes da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do Ministério da Justiça. A comissão terá encontros no Congresso americano, no Departamento de Justiça e com o Procurador de Justiça de Nova Iorque. A comissão retorna a Brasília no dia 29 de agosto.