Brasil favorito? Só quando o jogo terminar. Assim diziam as manchetes dos jornais na última quarta-feira, uma data tão importante quanto a deste domingo. Quem diria! Passamos invictos todas as fases e hoje, pela primeira vez na história das copas mundiais, enfrentaremos, do outro lado do planeta, a equipe da Alemanha. Será Alemanha ou Brasil, Brasil ou Alemanha. Como contra a Turquia: favoritismo, só quanto o jogo terminar.

O clima brasileiro melhorou, e muito, desde o início do certame. Nossa auto-estima está em alta (e alguns negócios também), apesar dos problemas que enfrentamos aqui dentro, seja na área econômica, seja na social, seja no setor de segurança pública – nosso joelho e calcanhar-de-aquiles. É difícil prever o resultado de hoje, assim como está difícil predizer o que pode acontecer dentro de três meses, nas urnas, quando a maratona que nos interessa de fato indicará um novo presidente.

Nos ensinam os craques da bola que o controle da ansiedade, normal numa circunstância de conflito iminente, é muito importante para quem tem a responsabilidade de realizar o sonho de trazer outro caneco. É lição que nos chega dos velhos generais de antigas guerras, repassada pelos comandantes do mais importante espetáculo desportivo da atualidade. Mais ainda, que esse caneco não é qualquer troféu, significa o penta (isto é, o quinto) campeonato. Entretanto, aqui no Brasil real onde os sonhos são muitos, mas contam pouco, esse controle está causando estrago. Além de mexer com nossos brios, mexe com nossa economia, com o emprego e o subemprego, faz oscilar as bolsas, corrói o valor de nossa moeda e agiganta a cada dia nossas dívidas – a externa e a interna, ainda maior.

Se faria bem uma vitória inédita sobre a Alemanha? Claro que sim. Colocaria em evidência ainda maior a nossa fama já inconteste de que, além de carnaval e violência, somos bons de bola. Com ou sem Pelé, o rei sem trono de todos os tempos. Nós merecemos pelo que fizemos em campo e fora dele, não temos mais dúvidas. Já não nos interessa mais o velho debate que elegeu a arbitragem como o escândalo dessa primeira Copa do século XXI, a mais eletrônica de todas. Esperneia quem fica para trás, sem recurso e sem taça. No futuro, quem sabe, além do trio de arbitragem teremos mais um árbitro extra. Ou, talvez, um tira-teima digital e não programado para favorecer nenhum dos lados.

Entre o primeiro e o segundo lugar – a Alemanha que se conforme – preferimos o primeiro. Convém que a superioridade brasileira sobressaia para elevar bem alta a mensagem de que nem tudo, no primeiro e velho mundo, pode e deve ser melhor. Emergentes, como nós, somos capazes de produzir a vida e conduzi-la à dignidade que merece em qualquer lugar do planeta. Com alegria e solidariedade. Mas se não for possível o primeiro (afinal, nem tudo é técnica, mas também há que existir um pouco de sorte, manha e arte), que o resultado de um segundo lugar com honras sirva para uma grande festa de confraternização. Aliás, esta deve ser a mensagem, apesar de o futebol ter se transformado num dos maiores e globais empreendimentos comerciais. Quando o jogo terminar, cuidaremos do resto.