Foto: Arquivo/O Estado

 O preço recebido pelo pecuarista no momento da venda do boi gordo caiu 14,94% entre janeiro e agosto deste ano, enquanto os custos de produção subiram 5,02%.

O cenário atual da pecuária de corte brasileira envolve uma série de contrastes, o que inclui recordes de exportações mas, ao mesmo tempo, queda do preço pago pelo boi gordo ao pecuarista, e expectativas quanto ao futuro do mercado de carne, depois de detectados focos de febre aftosa no sul do Estado de Mato Grosso do Sul. Esses assuntos foram tema de reunião do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), realizada na última quarta e quinta-feira em Brasília.

O presidente do Fórum, Antenor Nogueira, alertou que o fato mais preocupante é a manutenção da tendência de queda de renda do pecuarista, tendência que vem se mantendo desde 2003, e que leva ao desestímulo à criação de gado de corte em médio prazo. Segundo o estudo ?Indicadores Pecuários?, da CNA e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), o preço recebido pelo pecuarista no momento da venda do boi gordo caiu 14,94% ente janeiro e agosto deste ano. No mesmo período, os custos de produção (medidos dentro do conceito de Custos Operacionais Totais COT) subiram 5,02%. Ou seja, o produtor recebeu menos na hora de vender o gado e gastou mais para manter o rebanho. ?Isso representa perda de renda para o criador?, disse Nogueira.

Como essa tendência se mantém desde o final de 2003, a perda de renda impede maiores investimentos na criação, como melhoria genética, reforma de pastagem, mineralização e, paralelamente, amplia o abate de fêmeas, forma encontrada para gerar receita para o produtor. Com menos fêmeas, o País terá menos bezerros – dentro de pouco tempo, adverte Nogueira.

Exportações

O cenário de queda de renda no campo contrasta com os bons resultados das exportações. Entre janeiro e setembro, o Brasil registrou novo recorde nas exportações de carne bovina, com remessas que somaram US$ 2,361 bilhões, o que representa 1,73 milhão de toneladas (de acordo com o conceito de ?equivalente-carcaça?). A receita de exportações é 31% superior ao US$ 1,797 bilhão dos primeiros nove meses do ano passado. Em volume, as remessas cresceram 30%, comparadas ao total de 1,33 milhão de toneladas de carne bovina exportado entre janeiro e setembro do ano passado. ?Os números positivos das exportações não são repassados ao campo?, diz Nogueira. Entre janeiro e setembro, os principais destinos de carne bovina brasileira in natura foram Rússia (US$ 406 milhões); Egito (US$ 205 milhões); Holanda (US$ 155 milhões); Reino Unido (US$ 153 milhões) e Chile (US$ 136 milhões).

Os mais recentes dados das exportações compreendem o período entre janeiro e setembro, ou seja, antes de tornar-se oficial o surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul, o que ocorreu somente no início deste mês. Antenor Nogueira evita realizar estimativas sobre prejuízos que o evento poderá representar para as exportações brasileiras de carne bovina.

Segundo ele, as restrições à compra de carne bovina brasileira referem-se principalmente ao produto oriundo de Mato Grosso do Sul. ?Mas temos outros estados autorizados a exportar, que podem atender essa demanda?, disse o representante da CNA. Ele lembra que as medidas sanitárias necessárias para controle da aftosa foram adotadas em Mato Grosso do Sul para conter a doença dentro do perímetro do foco, evitando que o problema se espalhasse pelo restante do estado. Dessa forma, a carne bovina das regiões de Mato Grosso do Sul que continuam livres de aftosa com vacinação poderá abastecer o mercado interno, enquanto que outros estados atenderão a demanda de exportações.