Em linguajar característico de churrascarias de beira de estrada, dessas freqüentadas por intimoratos caminhoneiros que enfrentam, todos os dias, os perigos ocultos a cada curva, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao inaugurar o comitê central de sua campanha, em Brasília, engatou uma frase já com espaço garantido entre os valores referenciais de sua visão de mundo: ?Se nós, na hora em que estávamos roendo o osso, fizemos tudo isso que fizemos, agora que o Brasil está ajeitadinho, ajeitadinho, eles querem comer o filé mignon que colocamos na mesa? Não! Vai ter que roer o osso, como fizemos?.

Mais fundo que o incitante pensamento filosófico do presidente, seria de bom alvitre para o cidadão desguarnecido de saberes tentar compreender por si próprio a que tipo de pessoas o ex-metalúrgico estaria enfeixando sob o pronome ?eles?. O esforço é válido, pois vezes sem conta o presidente valeu-se da mesma generalização ao referir-se aos impronunciáveis sem entranhas que ousam duvidar das ?verdades? proclamadas aos quatro ventos.

Quem seria essa gente de maus bofes e vista curta, desprovida de acuidade para reconhecer as grandes conquistas sociais do governo? Avanços tão retumbantes que o presidente-candidato, no afã de torná-los grandiloqüentes, conforme a exigência da ocasião, não teve alternativa senão empregar o modo de falar digno de um enciclopedista: ?O Brasil está ajeitadinho, ajeitadinho?. Foi como se estivesse advertindo o bando de esfaimados à espreita do suculento mignon servido num hiperbólico banquete: aos senhores, infelizmente, só podemos oferecer um osso duro de roer!

Não fosse cômica a comparação com o episódio da Revolução Francesa em que a rainha, na falta absoluta de pão para saciar a fome da multidão revoltada, ordenou que comessem brioches, alguém poderia lembrar que o presidente brasileiro foi atacado por irresistível megalomania ao sugerir apenas aguada sopa de ossos aos potenciais sapadores da formidável obra construída em quatro anos. ?Eles fizeram por 500 anos. E nós só tivemos quatro anos.?

Nesse resumo fulminante do primeiro meio milênio de história, o presidente incluiu os malfeitos cometidos desde Cabral, passando pelos governadores gerais e donatários das capitanias, varando o império colonialista e a própria República nascente em 1889, até chegar aos tempos do neoliberalismo travestido com a roupagem da social-democracia. Somente os mais terríveis profetas da remota antigüidade foram dotados de iluminação suficiente para interpretar os fatos com tamanha desenvoltura.

O gesto magistral veio na afirmação também incluída no discurso da largada oficial da campanha, autêntico primor duma prosódia mais arrevesada que o samba do crioulo doido, do imortal Stanislaw Ponte Preta: ?É melhor dar lucros aos bancos do que fazer um Proer?.

Em tempo: para montar o comitê central da campanha o PT vai gastar R$ 3 milhões. Nadica de nada perto do rombo de R$ 40 milhões deixado por inspiração de José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério, autores da falência moral que Lula intenta disfarçar jogando ossos para a malta de roedores quinhentões…