O sistema de segurança pública não funciona. Ponto.

As suas inconsistências são gritantes, como exemplo, fronteiras abandonadas, sistema policial confuso, sistema judicial paupérrimo e sistema penitenciário decrépito. O resto é conversa.

Agora, a sociedade também é responsável pelos índices crescentes de violência. Não há como negar.

A sua indignação (organizada ou não), quase sempre imputa responsabilidade a terceiro (políticos, policiais, etc.), mas não discute a sua inércia, a sua omissão e a sua tolerância.

Aliás, acredita em soluções mágicas e em seus ilusionistas, pois é mais fácil deixar a solução para os outros, não se envolver e não assumir compromisso. Por isso, é conveniente votar naquele que diz que simplesmente vai resolver, mas não vai. E todos sabemos.

O exemplo cabal da irresponsabilidade da sociedade (organizada ou não) é a questão das drogas.

A droga, que é uma das principais causas da violência, é assunto que os pais, as escolas, as empresas (patrões e empregados), enfim, que a sociedade teima em ignorar. Como se o assunto fosse da responsabilidade exclusiva da polícia e do juiz de Direito, em outras palavras, tem fé na força (repressão), mas não sabe quanto o policial ganha ou quantos juízes existem para atender toda população. Em suma, foge de qualquer responsabilidade.

O seu intencional desconhecimento sobre o universo das drogas (substâncias-homem-sociedade) é a certeza que o consumo será crescente, o que elevará os números da criminalidade.

É preciso reconhecer que o “mundo” familiar, escolar e comunitário podem ser fatores da ingestão de drogas. É duro. Mas é verdade.

Basicamente, quem consome drogas atende a duas necessidades: a busca de prazer ou a extinção do mal estar.

Relações familiares saudáveis, ambiente escolar dinâmico (atraente e preocupado com o aluno/ser humano) e comunidade organizada em favor da vida são imprescindíveis para evitar o consumo de drogas.

Portanto, são causas (fatores) do consumo de drogas: fatores pessoais, fatores interpessoais (familiar, escolar, etc.) e fatores ambientais. Tal classificação é provada à luz da realidade, basta pensar nos casos concretos de ingestão de drogas que conhecemos na nossa comunidade.

A sociedade na sua opinião conveniente não consegue reduzir a demanda de drogas, pois seria necessário abrir as suas entranhas, isto é, discutir o caos familiar, os pais omissos, os filhos folgados, as escolas desestimulantes etc.. Porém, além de não diminuir a demanda, ainda disponibiliza droga à vontade.

Pior, muito pior. Disponibiliza a droga-mãe, o álcool.

O álcool é a porta de entrada para as demais drogas psicoativas. Ninguém chega à maconha, à cocaína ou crack sem passar pela cerveja, pelo uísque e pelo vinho. Enfim, pelo álcool.

A sociedade teima em não aceitar que o álcool é droga. Talvez, não querendo admitir que precisa de uma droga para eliminar a sua sensação de mal-estar.

É preciso ficar bem claro: se não trabalharmos (como sociedade) a questão do álcool, não venceremos a questão das drogas. Por conseqüência, não diminuiremos o consumo das substâncias psicoativas e os índices de violência.

Hoje, o álcool (legal e tolerado) está presente na casa, na escola, nas festas e no trabalho. Um verdadeiro deus.

É triste concluir que a sociedade na sua omissão e conveniência tolera que a indústria da bebida faça de todas as famílias um depósito de consumidores de drogas. A propaganda da bebida alcoólica que massifica a idéia que o álcool é prazer, alegria, juventude, desempenho sexual e beleza é lançada nos lares brasileiros sem nenhuma rebeldia social.

Para diminuir o consumo de drogas temos que evitar o consumo do álcool (droga lícita), aliás, com isso diminuiremos os índices de doenças, de violência e de morte (sem falar nos gastos de dinheiro público), o que passa também pela alteração da lei 9.294/96 (Lei antifumo e de propaganda de produtos nocivos à saúde).

Numa conclusão simples: devemos proibir a propaganda de bebida alcoólica na televisão e no rádio (grifei).

As crianças e em especial, os adolescentes, não podem ser bombardeados com informações incorretas e lesivas aos seus próprios interesses, os pais brasileiros (e demais órgãos sociais) devem cobrar dos políticos (o ano eleitoral é ideal) para afastar a referida propaganda de todos os lares.

O complexo mundo das drogas, é somente um exemplo da necessidade da atuação da sociedade para resolver os seus problemas.

Não existirá solução para violência, para o consumo das drogas e para o aperfeiçoamento do aparelho estatal de segurança pública, sem participação da sociedade brasileira.

Certamente, a extinção das propagandas de bebidas alcoólicas na televisão e no rádio seria um grande início para a sociedade retomar as rédeas de seu destino.

Márcio Geron

é juiz de Direito da Vara Criminal e Anexos da Comarca de Capanema./PR