Na semana passada, o Brasil perdeu seu intérprete. Raymundo Faoro nos ajudou a entender a formação da sociedade e do poder brasileiros, permitindo-nos compreender atualmente as relações sociopolíticas nacionais através de suas aulas sobre sociologia do poder e constituição do patronato político no país. Sua obra magistral, “Os Donos do Poder” (1958), trata da origem e manutenção do patrimonialismo, do conservadorismo na prática do poder político e do estamento burocrático republicano.

Sem olvidar os elementos exteriores, Raymundo Faoro retratou com maestria a prática interna brasileira que até hoje ocorre no Brasil: o exercício do poder público para satisfazer interesses privados. “No patrimonialismo, no momento da emergência das classes, procuram estas nacionalizar o poder, apropriá-lo, para que se dilua na elite. O conflito está presente nesse tipo de estrutura, sobretudo quando posta em convívio com o capitalismo industrial, por pressão externa e por efeito de expansionismo internacional deste. A elite política do patrimonialismo é o estamento, estrato social com efetivo comando político, numa ordem de conteúdo aristocrático.” (FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder. São Paulo: Globo, 2001. 3.a. ed., p. 830)

Tratando do sistema político do segundo reinado, discorreu sobre a prática brasileira de incorporar idéias estrangeiras, numa análise que também se mostra muito atual: ” [O sistema político] assenta sobre a tradição teimosa na sua permanência de quatro séculos, triturando, nos dentes da engrenagem, velhas idéias importadas, teorias assimiladas de atropelo e tendências modernizadoras, avidamente imitadas da França e Inglaterra. Mas a tradição não se alimenta apenas de inércia, senão de fatores ativos, em movimento e renovação, mas incapazes de alterar os dados do enigma histórico. Sobre as classes que se armam e se digladiam, debaixo do jogo político, vela uma camada político-social, o conhecido e tenaz estamento, burocrático nas suas expansões e nos seus longos dedos.” (p. 444-445)

Apesar desse livro ser seu grande referencial, Faoro nunca deixou de analisar a conjuntura nacional e internacional, em seus artigos semanais ao longo de toda sua trajetória.. Após o desmantelamento da União Soviética e a queda do muro de Berlin, preconizou acontecimentos que se mostram tão visíveis no momento atual, de ambição imperial norte-americana: “Nós estamos dentro de uma ordem mundial impensável há dois anos, a ordem de um império único, o que traz uma reformulação de todas as políticas internas, inclusive a política militar, a política industrial, as políticas de relações sociais.”(Istoé Senhor, 30/1/91)

Sobre o atual processo de globalização das economias, caracterizado pela orientação do enfoque de todas as atividades para o “mercado”, não mais nacionalizado nem regulamentado, e pela valorização do aspecto financeiro do capital, sem distinção entre mercados financeiros internacionais e nacionais, sua crítica não mediu palavras, assim como sua prática não mediu esforços: “Essa globalização é o papel que estão fazendo os países subdesenvolvidos, o papel de otários. O Brasil está desempenhando esse papel impecavelmente, é um otário para ninguém botar defeito, um país otário”. (Carta Capital, 6/12/2000)

O mundo após os atentados de 11 de setembro também foi objeto de discussão de Faoro, que assim mostrou sua indignação quanto à reação do governo dos EUA: “À sombra do terrorismo, que é moralmente inaceitável, criou-se coisa pior que o próprio, o antiterrorismo. O momento é gravíssimo porque distinguir a violência política do terrorismo é muito difícil.” (CartaCapital, 15/5/02). A processo de ataque ao Afeganistão com o conseqüente aprisionamento de cidadãos afegãos acusados de terrorismo em Guantánamo, Cuba, e a invasão do Iraque com a troca do comando do país, demonstram o quanto Raymundo Faoro estava correto também nestas afirmações.

Tatyana Scheila Friedrich

é advogada, mestre, e professora de Direito Internacional Público – FIC e UTP