Ergometria é o ato de medir o trabalho pelo ergômetro. Este, por sua vez, é um aparelho com o qual se mede o trabalho produzido por um homem ou por um animal. Assim diz o Aurélio eletrônico. Uma bicicleta ergométrica é alguma coisa parecida com um velocípede biciclo, cuja função principal é medir o esforço produzido pelo ato de pedalar. Normalmente, as bicicletas ergométricas são estacionárias, isto é, não saem do lugar. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nossa economia é uma bicicleta ergométrica. Isto é, não sai do lugar.

Lula falou isso na quarta-feira, antes de embarcar para outra viagem internacional a bordo de um moderno avião norte-americano que está testando para substituir um velho Boeing 707, apelidado de Sucatão, que atende à Presidência da República. O avião vale, segundo dizem, cerca de cinqüenta milhões de dólares. Nada comparável a uma bicicleta, o aparelho tem autonomia e elegância de sobra. Levou o presidente para discutir a fome com os maiorais do mundo, na França.

Segundo Lula, estamos pedalando, isto é, nos esforçando à toa. Precisamos colocar a bicicleta para andar. “Até para ver outras paisagens: a paisagem do crescimento, a paisagem sem criança na rua, a paisagem sem prostituição infantil, a paisagem sem trabalho escravo, a paisagem sem trabalho infantil, a paisagem sem favelas e a paisagem sem esgoto a céu aberto.” Poderíamos, com a licença sugerida pela idéia, acrescentar outras paisagens: a sem violência, a paisagem sem desemprego, a paisagem da esperança e tantas outras. Mas quem está impedindo essa bicicleta de andar?

Na mesma oportunidade, Lula fez outros mea culpa, que se juntam aos já feitos e conhecidos até aqui: reviu uma posição histórica do PT ao elogiar a participação dos fundos de pensão de grandes estatais na privatização de empresas durante o governo de FHC; e aconselhou o meio sindical a fazer mais política, mas não agir como ele agiu a seu tempo, limitando-se a reivindicar e a fazer greve. “Afinal de contas, são passados vinte e poucos anos e acho que houve uma revolução comportamental tanto de trabalhadores quanto de empresários e de governos.” É preciso, disse, que os trabalhadores tenham instrumentos de pressão. Os fundos de pensão podem ser um bom instrumento. Afinal, “ter dinheiro é ter parte do poder no mundo globalizado e capitalista”.

Com um pouco de esforço corremos o risco de imaginar que Lula descobriu, enfim, o que poderíamos chamar de realidade ergométrica. O dinheiro, e não (só) as ideologias, movem o universo. Pedalar um “Fome Zero” sem o vil metal não tira o programa do lugar, assim como fazer discursos sobre desemprego não gera oportunidades de trabalho para as hordas de desempregados que aumentam a olho nu. Tirar a economia brasileira da inércia estacionária requer um pouco mais de esforço que o simples controle sobre a taxa dos juros (mantidos altos, para delícia da ergometria especulatória), com o alegado combate à inflação.

Alegra-nos saber que a constatação foi feita. Isto é, que o presidente já percebeu, cinco meses após tomar posse, que está pedalando à toa, sem sair do lugar. O problema todo se resume em saber quando, afinal, trocará de bicicleta. Para visitar outras paragens que essa já conhecida da especulação de alguns sobre a estagnação da maioria que pedala, pedala e… não sai do lugar.