A única solicitação dos empresários, que, na quarta-feira, estiveram reunidos durante longas horas com o presidente Lula a pedido deste, foi o de o governo definir claramente as regras do jogo antes do início da partida. Questões regulatórias e ambientais à frente, os empresários estariam dispostos a investir pesado, como pede o presidente da República, em infra-estrutura básica, com destaque para portos, estradas, ferrovias e logística, desde que não sejam surpreendidos no meio do caminho por debates e impedimentos que possam ser resolvidos antes. Ecologistas com um olho na árvore da praça e outro na mídia costumam paralisar obras depois de iniciadas, com evidentes prejuízos aos investidores.

Existiam outros pedidos, mas, além de implícitos na observação geral, eles foram deixados de lado para não criar constrangimento. Um deles é sobre a taxa dos juros que, pelo menos por enquanto, continuará nas alturas, a desafiar os humores nacionais, incluindo os do vice-presidente José Alencar que, além de empresário, tornou-se uma espécie de símbolo doméstico no combate à estratégia usada pela equipe econômica do governo. Juros altos elevam o custo da dívida interna, frustram iniciativas no sentido do incremento da produção, desaconselham investimentos e coisas do gênero. A única vantagem, além do justificado combate à inflação, é beneficiar o capital de arribação, sempre condenado por Lula e seus companheiros, com generosas taxas. Embolsado o lucro, esses capitais voam daqui sem deixar nada em troca. Nem estradas, nem portos, nem aeroportos.

Mesmo sabendo disso, aos mais graúdos empresários tupiniquins Lula fez uma proposta de parcerias na realização de importantes obras que caberiam, a princípio, ao governo. Não existindo dinheiro em caixa (apesar dos recordes sucessivos de arrecadação…), o presidente quer dividir a tarefa com empreendedores. De tudo quanto foi conversado no encontro de três horas, entretanto, não se conhece o conteúdo. Nem ao menos em que bases seriam operadas as tais parcerias. Segundo consta, cada empresário desenvolverá projetos que serão submetidos ao governo dentro do prazo de trinta dias. Lula teria, inclusive, solicitado que não se falasse em prazos para que não comecem as cobranças em caso de alguma coisa dar errado.

O Brasil está parado – teria dito o presidente – e precisa voltar a crescer. O arroubo presidencial não poupou nenhum de seus antecessores, desafetos notórios ou atuais apoiadores. Chega da lengalenga dos últimos 20 anos, quando nada, ou muito pouco foi feito. Ao que um dos convidados – o presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Roger Agnelli – emendou: “Se não começarmos rapidamente a fazer investimentos em infra-estrutura, teremos logo um paradão, a nova versão do apagão da energia elétrica”.

Pode-se dizer que a conversa do presidente com os principais representantes do meio empresarial brasileiro foi positiva. Do “paradão” exorcizado, podemos entrar num ciclo de ação e desenvolvimento há muito imaginado para depois das reformas. Ante a manifesta disposição de trabalho dos interlocutores cabe, entretanto, ao governo dar o primeiro passo – isto é, a garantia efetiva de que, de fato, as regras serão claras em todos os sentidos. E talvez aqui resida o principal problema, principalmente porque ninguém será capaz de dizer ainda o que sairá das reformas em debate e daquelas que, ainda mal desenhadas, já trazem no mesmo pacote a semente da oposição que nasce no seio do próprio partido do governo. Aliás, essa exigência, que foi levada à mesa presidencial não por acaso, é a única que há tempos vem sendo feita. E até aqui, infelizmente, não encontrou as respostas esperadas.