Brasília (AE) – A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Mensalão deverá fazer a primeira reunião de trabalho amanhã (26), mas administra a primeira crise interna. Escolhido relator na semana passada, o deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG) corre o risco de perder o posto por causa do envolvimento numa denúncia publicada pela revista "Época" que circulou no fim de semana. De acordo com a notícia, Abi-Ackel foi beneficiário de uma doação de R$ 50 mil, feita em 1998, pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, para a campanha a deputado. Uma decisão foi tomada, independentemente das confusões: o ex-presidente nacional do PTB Roberto Jefferson será ouvido no dia 3. Foi ele quem denunciou a existência da mesada.

"Vamos ouvir o Abi-Ackel", antecipou hoje o vice-presidente da CPI, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), ao informar que o primeiro item da pauta de debates da comissão será o período a ser investigado. Nota de esclarecimento divulgada hoje por Abi-Ackel em Belo Horizonte dá conta de que a contribuição referida pela revista foi feita pelo setor financeiro da campanha majoritária do então candidato tucano a governador de Minas Gerais e hoje presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo.

O relator afirma na nota que "jamais conheceu nem conhece o sr. Marcos Valério". Esclarece, ainda, que o depósito foi efetuado por ordem de Cláudio Mourão, que coordenava as finanças da campanha de Azeredo, que se utilizou de uma agência de publicidade sobre a qual não pesava qualquer suspeita à época.

Em resposta a Abi-Ackel, o presidente do PSDB divulgou outra nota à imprensa hoje, esclarecendo que a campanha a governador de Minas foi realizada pela agência Duda Mendonça e que a prestação de contas, cujo valor totalizou R$ 8,55 milhões, foi integralmente aprovada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) mineiro. O senador considera que trazer esta questão a debate, neste momento, é tentativa de desviar o foco das graves denúncias de corrupção que envolvem setores do governo e partidos aliados.

Não é à toa que os petistas da CPI do Mensalão estão decididos a esticar as investigações pela última década.

Diferentemente da CPI dos Correios, que fixou o prazo do inquérito em denúncias de corrupção ocorridas entre 2000 e 2005, eles querem que esta comissão comece a investigar a partir de 1995, em tempo de pegar o caso da suposta compra de votos para aprovar a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Pimenta confirma que a idéia é pedir a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico do empresário Valério de 1995 para cá. Os petistas da CPI do Mensalão acreditam que só assim conseguirão flagrar irregularidades no financiamento de campanha de parlamentares dos mais variados partidos, mostrando que Valério atuava bem antes de o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começar.

Reunidos hoje com Pimenta para discutir a estratégia do partido na CPI, os petistas decidiram que este é o melhor caminho para comprovar o discurso de Lula, de que financiamento ilegal de campanhas políticas é prática tão antiga e quanto generalizada. Desta forma, eles acreditam que poderão criar um caminho para "salvar" alguns petistas envolvidos nas denúncias, como o líder licenciado da bancada da Câmara, Paulo Rocha (PA).

Um dirigente petista explica que a tática do partido na CPI será diferenciar casos como o de Rocha, que preside o PT paraense e, por isto, teria recebido dinheiro para financiar campanhas, vindo das contas de Valério por determinação do então tesoureiro Delúbio Soares. Na visão deste parlamentar, o episódio que envolve o líder não pode ser comparado ao caso do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP), cuja mulher sacou pessoalmente R$ 50 mil no banco Rural.