O senador Renan Calheiros continua empoleirado na presidência do Senado Federal, apesar de tudo clamar por seu afastamento. Afastamento e não renúncia, como pretendem alguns, pois aí seria ir a extremos antes do devido julgamento do parlamentar alagoano por falta de ética e outros senões, que vão de sonegação fiscal, falsidade dos fundamentos de defesa invocados e sabe-se lá o que mais. A acusação primeira já seria suficiente para que ele, usando de bom senso, se afastasse da presidência para deixar seus pares livres para examinar o caso. Afinal de contas, ela não trata de coisas de somenos e, sim, de suspeita de que ele usou dinheiro de uma empreiteira para pagar obrigações financeiras pessoais, no caso, pensão alimentícia a uma filha. No transcorrer das turbulentas investigações, sempre com a interferência do próprio acusado, surgiram sinais de que ele teria apresentado em sua defesa documentos formalmente verdadeiros, mas produzidos para provar duvidosos negócios com gado, sua principal fonte de rendas. Mais uma razão para o afastamento do cargo. Finalmente, depois de renúncias sobre renúncias na Comissão de Ética do Senado, o colegiado que deveria examinar se algo de impróprio existiu, ainda empoleirado na presidência do Senado, Renan viu toda a papelada que fora colocada em dúvida por muitos de seus pares e por laudos da Polícia Federal ser entregue à assessoria jurídica da Casa que preside. Ou seja, entregue a altos funcionários seus subordinados.

Afinal, mas não finalmente, o conturbado processo acabou nas mãos da mesa diretora do Senado, que é presidida pelo próprio Renan Calheiros. Mas aí o vice-presidente senador Tião Viana, do PT do Acre, foi quem mais influiu na decisão. E o fez com correção, determinando que o processo contra Calheiros voltasse à Comissão de Ética e os defeitos que pudesse ter sejam por ela corrigidos. E que Renan seja investigado, tanto e quanto seja necessário para provar sua culpabilidade. Ou, o que será muito melhor para o Congresso e para o País, sua inocência.

Nem mesmo diante dessa ajuizada decisão, o presidente do Senado desceu do seu poleiro. Recebeu constrangido a proposição da bancada do PSDB, expressa por seu líder, senador Arthur Virgílio, que em plena sessão pediu que ele se afastasse da presidência enquanto seu caso é examinado pelo Conselho de Ética. O senador Arthur Virgílio, antes do início da sessão plenária, mandou um recado ao presidente da Casa, avisando que iria pedir, em nome do seu partido, tal afastamento. Pois nem assim o político alagoano levantou-se da poltrona. E leu uma declaração: ?Com serenidade e reflexão, entendo que devo permanecer na presidência do Senado mesmo que isso contrarie apetites políticos de ocasião. O Senado é bem maior que a crise que querem agigantar?. Bonito, mas uma desculpa que não se sustenta. Entre os que pedem ao presidente do Senado que se afaste de seu cargo enquanto é julgado estão nomes como o do seu correligionário, o respeitável senador Pedro Simon, e de seu aliado político, o igualmente respeitável senador Eduardo Suplicy. E não poucos senadores que acreditam em sua inocência ou pelo menos ambicionam sua absolvição. Mas que se constrangem ao atuarem, como parlamentares da mais solene casa do Congresso, sob o comando de um senador que está sob suspeita e, para afirmar sua inocência, quer ver tudo do alto de seu cargo, dirigindo direta ou indiretamente o seu próprio julgamento.

Com essa atitude, a volta do processo à Comissão de Ética de certa forma salva o Senado da pecha de conivente, mas marca profundamente a carreira do político alagoano que dizem ambicionar a vice-presidência da República. Renan, mesmo que inocente, é culpado de abusar do cargo para constranger os que legitimamente têm o dever de investigá-lo e julgá-lo.