O governador Roberto Requião afirmou, nesta sexta-feira, que a origem da crise política brasileira é a manutenção pelo atual governo da política econômica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e classificou o pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de um discurso para divertir e desviar do que importa.

?Foi um discurso para divertir, do italino divertere, que significa desviar do que importa. O verdadeiro eixo da crise é a continuidade da política econômica do Fernando Henrique Cardoso. Nós votamos nos Lula para que o Brasil mudasse. Para que sua vitória significasse a volta da esperança, da participação dos brasileiros nos mercados de trabalho e de consumo, e para que houvesse respeito pela aventura de vida de cada brasileiro. Mas o que vemos é a continuidade da política econômica. E isso sim, sem sombra de dúvida, é traição?, disse.

Requião lembrou que o Brasil tem hoje a maior taxa de juros do mundo, seguindo pela Turquia onde as taxas são um pouco mais que um terço da praticada no Brasil. E que essa política do Banco Central só beneficia o sistema financeiro.

?O Bradesco, por exemplo, conseguiu um lucro de R$ 2,6 bilhões. Os juros elevados fazem que apenas vinte mil pessoas, que são os titulares dos recursos que financiam a dívida interna, aufiram 80% de tudo o que o Brasil paga. Enquanto isso, desemprego, resistência ao aumento do salário mínimo e falta de investimentos internos. A traição está aí, na manutenção desse modelo econômico que interessa a bancos e a minorias, mas que decididamente não interessa ao povo brasileiro?, afirmou.

Corrupção

O governador também ressaltou que a pergunta que deve ser respondida hoje diante da crise política é quem se beneficiou com a suposta compra de parlamentares.

?Ninguém pergunta quem pagou e quem se aproveitou da corrupção. Ninguém diz que o ministro Antônio Palloci foi o coordenador da campanha do Lula, mas ficam procurando pequenas figuras corrompidas, que devem mesmo perder o mandato e ir pra cadeia. Mas a mudança essencial para o país é a econômica e não a eleitoral?, garantiu.

?Se comprou-se parlamentares não foi para colocá-los na mesa de cabeceira ou para fazer uma exposição de corruptos. Eles foram comprados para a manutenção do regime econômico e para o prosseguimento da tese entreguista do Banco Central independente e a manutenção dos juros absurdos. Uma política que investe no Brasil menos de 5% dos recursos do país e utiliza o resto para pagar juros e uma dívida que sequer sabemos se de fato a temos?, explicou.

Reforma

Requião também criticou a idéia de que a reforma política vá representar o fim da corrupção no país. Para ele, o que está sendo proposto é a supressão do Congresso Nacional, dos poderes do presidente e a eliminação do debate eleitoral.

?O país manifesta sua vontade na eleição majoritária presidencial e eles querem substituir isso por agências reguladoras, por Banco Central independente e por supressão da discussão política. O voto distrital, por exemplo, transforma o deputado federal numa espécie de vereador federal, que não se incomoda mais com as grandes teses ? como educação, soberania e macroeconômia ? mas vai ao Congresso Nacional pedir pequenas coisas para sua base eleitoral?, disse.

PMDB

O governador também criticou a participação do PMDB no governo em troca de cargos políticos.

?É um absurso. Deveríamos apoiar as idéias positivas que surgissem. Mas o que está acontecendo é uma troca de apoio mecânico pela participação no governo. Não é verdade essa participação do PMDB, principalmente quando decidimos, na convenção nacional, lançar candidato próprio à presidência da República e, ainda mais ainda agora, quando lançamos um pré-programa do partido para a mudança do país. O documento, pensado pelo ex-presidente do BNDES Carlos Lessa, pode ser encontro na site do Governo do Paraná. Vamos discuti-lo no país inteiro para mostrar aos brasileiros que há outro caminho que não o do liberalismo e da covardia diante da capital internacional?, disse.