Para o Brasil, a última Cúpula do Mercosul mais pareceu uma cópula. O encontro realizou-se em Córdoba, Argentina, e ganhou um colorido especial, avermelhado, com ampla repercussão na imprensa nacional e estrangeira porque teve uma nítida conotação de reunião esquerdista. E de esquerda não era o Mercosul quando criado e nem mesmo durante o tempo transcorrido até agora, com seu nanico crescimento, senão encolhimento. Desta vez, a cúpula teve como pretexto a admissão da Venezuela como nova sócia do bloco. A Venezuela de Hugo Chávez, discípulo de Fidel Castro e mestre de Evo Morales, da Bolívia, e de outros governos de esquerda que estão assumindo o poder na América do Sul.

Também serviu de palco para Fidel Castro, de Cuba, que com Chávez, e até muito mais do que o truculento presidente ditatorial venezuelano, foi aplaudido, adulado, ouvido num de seus infindáveis discursos e objeto de ruidosa tietagem. Acabou sentenciando que o Mercosul, que muita gente sentia moribundo, se transforma agora numa das mais importantes forças econômicas do mundo. Possivelmente arroubo de oratória do velho líder comunista da ilha caribenha, justificado porque se cogitou do ingresso no bloco da Bolívia, do Equador, de Cuba e do México. A geografia não concorda, pois Cuba fica no Caribe e o México na América do Norte. Portanto, distantes do cone sul do qual o Mercosul pretende ser bloco político, diplomático e econômico.

A Cúpula do Mercosul na Argentina marcou a perda da liderança de Lula, que esteve presente, mas em segundo plano, com seu brilho ofuscado principalmente por Chávez e Fidel. Isso não obstante tenha sido o presidente brasileiro autor da proposta de ampliação do bloco, com inclusão até de dois países do norte. Embora Fidel tenha prognosticado um papel espetacular de liderança econômica para o Mercosul, a reunião de Córdoba teve um saldo econômico minguado. Somente dois acordos comerciais foram assinados, um com Cuba e outro com o Paquistão, e a promessa de ?um novo pacto?, com benefícios para os sócios menores, com o respaldo da petrolífera Venezuela. Os dois acordos firmados têm uma importância relativa, pois tanto Cuba quanto o Paquistão têm papéis de pouca expressão na economia mundial e não podem participar de negócios em volumes apreciáveis e que justifiquem o exagerado otimismo de Fidel Castro.

Ainda no campo econômico, a cúpula andou à ré quando Uruguai e Paraguai insistiram na conquista do direito de fazer acordos bilaterais, o que não interessa, obviamente, ao bloco Mercosul. No campo político, o Brasil perdeu a liderança exercida até agora e encarnada primeiro por FHC e, até agora, por Lula. A Venezuela de Hugo Chávez nos toma o comando e até a velha ambição do Brasil de fazer parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quando presidente, Fernando Henrique Cardoso lutou tenazmente para viabilizar este objetivo. No governo atual, Lula correu mundo fazendo campanha pela ambicionada vaga. Mas a Cúpula de Córdoba decidiu recomendar e lutar por uma cadeira no Conselho de Segurança para a Venezuela de Hugo Chávez. O Brasil perdeu em tudo.