“Utilizo-me com freqüência da tática do medo para motivar e promover o fortalecimento da equipe. Acredito que essas pessoas estarão sempre espertas, produzindo e apresentando resultados cada vez melhores, sob a ameaça constante de perder o emprego. O terror produz resultados positivos, tenho certeza disso.” Ouvi tal pérola do coordenador de relações internacionais de uma grande multinacional instalada no Brasil. Perplexo, desconcertei-me diante de tamanha besteira. No entanto, decidi utilizar-me dela para lançar debate acerca de uma das questões que mais atiçam o mundo corporativo: a relação tumultuada e atribulada entre chefes e subordinados. Tal entrosamento pode emperrar ou impulsionar sua carreira profissional. Não é à toa que este embate conflituoso, controverso e, muitas vezes perverso, é responsável por cerca de 38% das demissões, segundo pesquisa divulgada recentemente.

Os manuais de etiqueta no trabalho estão nas prateleiras das livrarias, inundados de dicas preciosas sobre a maneira correta de lidar com os superiores. Numa outra frente, a imprensa especializada não se cansa de produzir textos com objetivo de minimizar essas dificuldades. Trata-se, na verdade, de um tema recorrente e com impactos significativos nas políticas de recursos humanos das organizações mais avançadas. Evitar a saia justa traduz-se na combinação das habilidades sociais e técnicas para se avançar nos níveis internos. O que isso significa? É conveniente e prudente observar os movimentos que ocorrem no microcosmo do escritório, independentemente das metas e prazos a serem cumpridos.

Um currículo musculoso não é garantia de sucesso para ninguém. MBA, pós-graduação e idiomas, dentre outros anabolizantes, podem ajudar, mas não resolve. Os gurus da administração moderna já comprovaram que a capacidade de lidar com gente pode fazer a diferença no ambiente empresarial. Em meio a este cenário inóspito e aparentemente intransponível, a boa notícia é que a melhoria dos processos depende apenas de você. Está nas suas mãos, pelo menos em grande parte, a condução de achar a sintonia fina do relacionamento com a chefia, sem bajulação, exageros ou agrados com potencial para interpretações equivocadas.

Se ao subordinado convém a tarefa de procurar os meios ideais para pavimentar este fluxo sadio, cabe ao chefe, no caso o líder, promover o ambiente sadio, onde as pessoas se sintam felizes, privilegiadas e motivadas para manter a produtividade em patamares desejados e programados. Ao propiciar este círculo virtuoso e de constante aprendizado, fatores que promovem o crescimento, os profissionais engajam-se naturalmente e comprometem-se a contribuir com novas e arejadas idéias.

A personalidade do gestor tem influência direta no desempenho da equipe. Num clima ruim, a tendência é que a performance despenque em níveis assustadores. Dessa maneira, o local de trabalho torna-se um pântano de desilusão, onde impera a desconfiança, o desânimo, a fofoca, a inveja, as jogadas rasteiras, a cizânia, e tudo aquilo que conspira contra a satisfação corporativa. Assim, o sucesso ou o fracasso de um talento está ligado à conduta do comandante. Se o chefe for inseguro e recorrer a demonstrações de poder para reafirmar sua condição, coloca-se em xeque o êxito do projeto, o clima, e a retenção de talentos.

A força dos sentidos é fundamental na análise e controle da situação. Preventivamente, procure compreender as orientações que vem de cima para baixo, e seja proativo em procurar as melhores alternativas – mesmo que haja discordância. Avalie o contexto e assuma a tarefa de administrar a própria carreira, sem confrontos, ironias ou agressividade, pois um ambiente turbinado pela tensão gera mais tensão. O diálogo é a porta de entrada do consenso. Portanto, através da conversa franca, sem rodeios, tente entender seu papel dentro da equipe e o que poderia fazer para cumprir as metas com eficiência e agilidade. Revela seus objetivos e seu interesse de cooperar no crescimento da companhia. Coloque-se como uma peça importante na engrenagem corporativa e solicite avaliações periódicas. Enfim, abra todos os canais de comunicação disponíveis no seu arsenal.

Ao sedimentar esta via de mão dupla com o superior direto, tal conquista é uma evolução das relações interpessoais. Marcar posição é sinônimo de personalidade e maturidade profissional, mesmo que seu chefe seja autoritário e intempestivo. Trata-se de um pacto que só trará benefícios. Ele vai te ouvir diante deste choque de liberdade tão saudável para eliminar as desavenças e os desencontros. Caso nada disso dê resultado, não se martirize: chegou o momento de mudar de emprego.

Júlio Sérgio de Souza Cardozo

é presidente da Ernst & Young na América do Sul. ( julio-sergio.s.cardozo@ br.ey.com ).